as dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968

LP As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enredo de 1968

Produzido em 1968 esse disco se tornaria histórico, denominado de “As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968”.  Ali foram registradas pela primeira vez os sambas-enrêdo das escolas de samba. Se tomarmos como referência o ano de 1932, quando ocorreu o primeiro desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, veremos que foram necessários quase quarenta anos para que a música dessas agremiações passasse a ser registrada em disco de maneira contínua.

Em 1968, foram lançados dois LPs que reuniam os sambas-enrêdo apresentados naquele carnaval: “As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968”, produzido pelo Museu da Imagem e do Som (MIS); e “Festival de samba”, pela gravadora Discnews. Enquanto o primeiro tinha um propósito documental, o segundo daria início à prática de gravação e lançamento de discos anuais de samba-enredo que perdura até hoje.

Devemos todos nós este disco a Hélio Turco e a Ala de Compositores da Mangueira. Sabem por que? Foram eles os compositores do samba-enredo clássico de 1967, “Mundo encantado de Monteiro Lobato”. Essa primorosa obra, que levantou ainda um campeonato para a verde-rosa, se tornou sucesso no Brasil inteiro na voz da cantora Eliana Pitman. As gravadoras de música despertaram um enorme interesse pelos nossos amados sambas-enredo. Daí, foram gravados, no final de 1967, sambas que seriam levados para a Avenida no próximo ano, em 1968.

Gabriel Carin – sambariocarnaval

Sobre os sambas…

MANGUEIRA 68
Ritmo da Escola / Samba, festa de um povo
Darcy da Mangueira – Luis – Batista – Hélio Turco – Dico
voz: Darcy
[ ouça ♫ ]

Um clássico da verde-rosa! Grande samba mangueirense do mestre Hélio Turco e cia. Ajudou muito a levantar o bicampeonato em 1968 e até hoje encanta muita gente por aí . Tem uma letra incrivelmente poética e uma melodia muito simpática, até um pouco pesadinha (algo comum nos sambas verde-rosas dos anos 60). Os refrãos são as únicas partes que podiam ser um pouquinho mais caprichadas. Mesmo assim, é uma obra fantástica, uma bela homenagem ao relicário do samba! Gosto muito do trecho “oh! melodia/ oh! melodia triunfal/ sublime festa de um povo/ orgulho do nosso carnaval“.

num cenário deslumbrante
do folclore brasileiro
a Mangueira apresenta
a história do samba verdadeiro
música… de origem bem distante
de uma era tão marcante
que enriqueceu nosso celeiro
as diversas regiões
entoavam as canções
era um festival de alegria

foi assim com sedução e fantasia
que despontou o nosso samba
com grande euforia

foi na Praça Onze
das famosas batucadas
que o samba teve a sua glória
no limiar da sua história
quantas saudades
dos cordões da galeria
onde o samba imperava
matizando alegria
oh! melodia
oh! melodia triunfal
sublime festa de um povo
orgulho do nosso carnaval

louvor aos artistas geniais
que levaram para o estrangeiro
glorificando
o nosso samba verdadeiro

SÃO CARLOS 68
Visita ao Museu Imperial
Jorge Cabo
[ ouça ♫ ]

Samba animadinho, num enredo interessante — Museu Imperial —. O resultado é muito bom para um enredo complexo. Porém, ainda não entendi se o enredo trata do Museu Imperial de Petrópolis ou da Quinta da Boa Vista (aqui no Rio). Creio que deve ser o de Petrópolis mesmo, pois a coroa, as jóias, o fardo e as carruagens do Imperador Dom Pedro estão lá (mas o nome é o mesmo). O refrão “encerra passagem da nossa história/ todo o passado de glória/ deste exuberante relicário” é muito bom. A obra merecia uma regravação pra não cair no ostracismo.

guardei a mais bela recordação
promovida à inspiração
ao ver, uma obra monumental
e neste samba, meu mensageiro feliz
lembro a visita que fiz
ao museu imperial
e no conviver tanta beleza
com requinte, a riqueza
do majestoso cenário

encerra passagem da nossa história
todo o passado de glória
deste exuberante relicário

então, ergue sua voz o trovador
para exaltar com muito amor
o rico manancial
revive na singela melodia
o fausto da monarquia
da família imperial
relembro as jóias maravilhosas,
carruagens majestosas,
o manto e a coroa do imperador
os leques simplesmente divinais,
pratarias e cristais,
figuras e esculturas de real valor
assim, enfeitiçando a imensidão
embalando na canção
vai o feliz trovador

lalará, lalará, lalalará…

O melhor samba-enredo da história do Salgueiro! Sua melodia merece um prêmio pela emoção inesquecível

Gabriel Carin

IMPÉRIO SERRANO 68
Pernambuco, leão do norte
Silas de Oliveira
[ ouça ♫ ]

Obra-de-arte de Mestre Silas de Oliveira! “Pernambuco, leão do norte” é considerado seu pior samba no seu período dourado (1964-1969), mas mesmo assim é maravilhoso. É um clássico extraordinário do Viga Mestre imperiano! Sua letra é primorosa, com rimas belíssimas, coisa que só gente campeã consegue fazer, pois conta muito bem o enredo pernambucano. A melodia é singular, pois é um dos únicos sambas que, quando são cantados aceleradamente, ficam mais gostosos e dançantes. A parte “evocando os Palmares/ terra de Bamboriki/ ainda ouço pelos ares/ o retumbante grito do Zumbi” é um delírio para os amantes de samba-enredo. Boa obra, apesar de não ser o melhor samba dele.

esta admirável página
que o passado deixou
enaltece a nossa raça
disse um famoso escritor
que Maurício de Nassau
na verdade foi um invasor
muito genial

glória a Vidal de Negreiros
e aos seus companheiros
que na luta contra os holandeses
em defesa ao Leão do Norte
arriscaram suas vidas
preferiram a morte

na trégua dos guararapes
teatro triste da insurreição
houve estiagem, coragem, abnegação
Pernambuco hoje
é orgulho da federação
evocando os Palmares
terra de Bamboriki
ainda ouço pelos ares
o retumbante grito do Zumbi

lá, rá, rá, rá, rá, rá
lá, rá, rá, rá, rá

Passistas no desfile do Salgueiro no carnaval de 1968
Passistas no desfile do Salgueiro no carnaval de 1968 (foto: Agência O Globo/Arquivo)

INDEPENDENTES DO LEBLON 68
Aspectos da vida carioca no século XVIII
Alexandre Luis
voz: Julinho
[ ouça ♫ ]

A Independentes do Leblon, que tinha sua quadra localizada no morro da Praia do Pinto, por pouco não correu risco de desaparecer. Em 1969, a sede da escola viria a ser transformada pela prefeitura em um conjunto residencial, o que literalmente despejaria os sambistas no olho da rua. Entretanto, com muito esforço, os moradores do bairro conseguiram reerguer a agremiação e montar uma nova quadra, na Cidade Alta, fundando assim a Independentes do Cordovil. Quanto ao samba de 1968, ano de sua última aparição no Primeiro Grupo, é relativamente bom. O grande destaque da obra é sua letra, recheada de lirismo e capaz de contar o enredo com competência (apesar de uns errinhos de métrica aqui e acolá). Infelizmente, o maior pecado desse samba é justamente sua melodia, principalmente na primeira parte. As variações são escassas, sem brilho e o hino acaba beirando a monotonia. Porém, como se partisse do zero, a obra cresce assustadoramente do ponto de vista melódico em sua segunda parte, conseguindo enfim cativar o ouvinte. Ambos os refrãos são bonitos.

revivemos a história tão febril
um passado deslumbrante
cheio de encantos mil
foi no século dezoito
que o Rio de Janeiro
deu um grandioso passo
em sua propagação
com a edificação
do sublime relicário
do mais alto gabarito
Capela do Rosário e São Benedito

e daí
a cidade cresceu
para se tornar tradicional
na era colonial

Rio das congadas
esse belo ritual
dava um colorido fascinante
nessa terra colossal
vindo das barrocas
as elegantes e mais ricas cariocas
e de um povo alegre e hospitaleiro
das mucamas e dos velhos aguardeiros
Rio dos Vice-reis
as mais altas personalidades
e que mundo trabalhava
em prol do desenvolvimento da cidade
construindo lindas obras imortais
do Rio antigo que não volta nunca mais

a verdade é, que o núcleo originário
desta crescente evolução
foi o ouro e o diamante que os bandeirantes
descobriram no sertão

VILA ISABEL 68
Quatro séculos de modas e costumes
Martinho da Vila
voz: Martinho da Vila
[ ouça ♫ ]

Outro samba primoroso de Martinho (o mestre emprestou o seu talento para a faixa da MIS), o seu segundo samba para a escola. Parece que o cantor está narrando um desfile de modas, cujos desfilantes são de todas as épocas. Você pode reparar isto no refrão “lá vem o negro/ vejam as mucamas/ também vem com o branco/ elegantes damas“. A melodia é muito bonita, com várias variações interessantes. Belo samba da Vila Isabel no primeiro Grupo! Martinho revolucionava o estilo de samba da época .

a Vila desce colorida
para mostrar no carnaval
quatro séculos de modas e costumes
o moderno e o tradicional

negros, brancos, índios
eis a miscigenação
ditando moda
fixando os costumes
os rituais e a tradição

e surgem tipos brasileiros
saveiros e bateador
o carioca e o gaúcho
jangadeiro e cantador

lá vem o negro
vejam as mucamas
também vem com o branco
elegantes damas

desfilam modas no Rio
costumes do norte
e a dança do sul
capoeiras, desafios
frevos e maracatus

laiaraiá, ô
laiaraiá
festa da menina-moça
na tribo dos Carajás
candomblés vem da Bahia
onde baixam os orixás

MOCIDADE INDEPENDENTE 68
Ritmo da Escola / Viagem pitoresca através do Brasil
Tião da Roça – Djalma Santos
[ ouça ♫ ]

A bateria de Mestre André era realmente espetacular! No disco da MIS, ela fica dando um showzinho durante quase a metade da faixa! Só pára de fazer o espetáculo lá pros dois minutos da gravação, quando o coro começa a entoar o samba. O samba da Mocidade é lindíssimo! Mais uma vez, a péssima qualidade da gravação é um golpe muito baixo contra a escola da Vila Vintém. A melodia da obra é muito envolvente, um lirismo incrível! O refrão “glórias/ a esta bela viagem sua/ pois existem até hoje em Munique/ lindos quadros retratados em pinturas” é um dos mais emocionantes que a Mocidade já teve. A letra conta muito bem o tema, que em certos momentos lembra o samba da Imperatriz de 1969, “Brasil, flor amorosa de três raças”.

ao rever a história
que Maurício Rugendas deixou
eu destaquei na memória
essa página de glória
muito importante e tão viril
viagens pitorescas
através do Brasil
as nossas praias sem iguais
interrompidas por rochedos colossais
e as matas verdejantes
onde existem vários animais
Rugendas observou essa beleza
ao contemplar a natureza
caminhando por esse Brasil afora
entusiasmado Rugendas catalogou
as cenas tristes e alegres
nos idos tempos do Brasil imperial

glórias…
a esta bela viagem sua
pois existem até hoje em Munique
lindos quadros retratados em pinturas

ainda dentro do seu roteiro
luta e lamentos de raça
Rugendas anotou
com orgulho o nosso povo brasileiro

e a mulata
com seu feitiço e beleza
era disputada a peso de ouro
pela mais alta nobreza

eu revi na minha música a memória
estas páginas de glória
que Rugendas deixou
no lindo berço de sua história

SALGUEIRO 68
Dona Beja, a Feiticeira de Araxá
Aurinho da Ilha
[ ouça ♫ ]

O melhor samba do ano (supera por muito pouco o “Sublime pergaminho!” Pra falar a verdade, melhor do ano é pouco. Tá bem: O melhor samba-enredo da história do Salgueiro! Sua melodia merece um prêmio pela emoção inesquecível . Passa todo um sentimento maravilhoso para o ouvinte, algo que a gente jamais vê em um samba de hoje em dia. A melhor obra de Aurinho da Ilha, que compôs também clássicos como “História da liberdade no Brasil” (Salgueiro-1967) e “Domingo” (União da Ilha-1977). Você não precisa nem prestar atenção na letra da obra que o sentimento passado pela melodia já propaga a paz em sua mente. As variações são muito complexas, nem parece que é um ser humano comum que fez samba. Hoje em dia, a gente não vê um samba deste. Quando a gente acha que a melodia complexa dos versos vai “repousar”, surge outra variação extraordinária. Vocês podem notar isso que eu disse quando acaba lentamente a parte “mas antes, com seu trejeito feiticeiro/ traz o Triângulo Mineiro/ de volta a Minas Gerais” e de repente, surge outros potentes versos “e até o fim da vida/ Dona Beija ouviu falar/ e seu nome figurar/ na história de Araxá“. Mas, mesmo assim, é muito difícil um ouvinte não se encantar pela letra esplendorosa deste samba. Pra falar a verdade, essa obra não tem letra, tem poema!!! A introdução (“certa jovem linda, divinal/ seduziu com seus encantos de menina/ o Ouvidor Geral/ levada a trocar de roupagem/ numa nova linhagem/ ela foi debutar“) dispensa comentários. Imagina o que Ana Jacinta deveria sentir ao pelo menos ler o trecho “Ana Jacinta, rainha das flores/ dos grandes amores/ dos salões reais/ com seus encantos e suas influências/ supera as intrigas/ os preconceitos sociais“! Ainda há o endeusamento (pasme) exagerado que Aurinho faz na parte “era tão linda, tão meiga, tão bela/ ninguém mais formosa que ela/ no reino daquele Ouvidor/ ela com seu feitiço inteligente/ cria um reinado diferente/ na corte de Araxá/ e nos devaneios da festa de Jatobá“. Acho que falei do samba inteirinho neste comentário.

certa jovem linda, divinal
seduziu com seus encantos de menina
o Ouvidor Real
levada a trocar de roupagem
numa nova linhagem
ela foi debutar
na corte, fascinou toda a nobreza
com seu porte de princesa
com seu jeito singular

Ana Jacinta, rainha das flores
dos grandes amores
dos salões reais
com seus encantos e sua influência
supera as intrigas
os preconceitos sociais

era tão linda, tão meiga, tão bela
ninguém mais formosa que ela
no reino daquele Ouvidor
ela com seu feitiço inteligente
cria um reinado diferente
na corte de Araxá
e nos devaneios das festas de Jatobá
mas antes, com seu trejeito feiticeiro
traz o Triângulo Mineiro
de volta a Minas Gerais

até o fim da vida
Dona Beja ouviu falar
viu seu nome figurar
na história de Araxá

IMPÉRIO DA TIJUCA 68
Homenagem a Portinari
Aílton Furtado – Mário Pereira
voz: Mário Pereira
[ ouça ♫ ]

Samba poético e dolente, que faz uma bela homenagem a Portinari. Tem alguns “remendos” na letra, mas se trata de um bom samba.

verdes campos da minha terra
florescem, para inspirar
livre canto da minha terra
canto forte, para exaltar
Portinari, do azul celestial
a beleza pictórica do mural

com destemor
retratou, sem fantasia
nosso diário labor
sonhos e sobrevivência
nos cafezais, no algododeiro
na procura eterna, o garimpeiro

pintou, com poesia
a força que no agreste se fazia
nosso chorar, nosso sorrir
na tela e gigantescos murais
foi o primeiro a colorir
nossos problemas sociais

sertão
grande inspirador
daquele que seria
o nosso melhor pintor
morro
também fostes retratado
e o moleque esfarrapado
que vendia alguma coisa no tabuleiro
para ganhar o pão
ele pintou com emoção

e quando a ONU o convidou
para o painel da sala das nações
deslumbrou, na cor o tema profundo
“guerra e paz” no mundo
assegurando o seu lugar
além dos nossos corações
é imortal,
na história da pintura universal

UNIDOS DE LUCAS 68
Sublime pergaminho (HISTÓRIA DO NEGRO NO BRASIL)
Carlinhos Madrugada – Zeca Melodia – Nilton Russo
voz: Abílio Martins
[ ouça ♫ ]

Um clássico do carnaval, eleito por muitos o melhor samba de 1968 e até de todos os tempos! A Unidos de Lucas conseguiu sua melhor colocação (quinto lugar) com este maravilhoso samba de Carlinhos Madrugada, Zeca Melodia e Nílton Russo e com o trabalho genial de Clóvis Bornay como carnavalesco. Foi puxado na avenida por Abílio Martins. Narra com grande perfeição o sofrimento dos negros na primeira parte. Aos poucos, ao decorrer da obra, essa dor vai “sarando” e a cada anúncio de revogação das leis, você sente o samba muito mais otimista. A obra cresce ao decorrer de cada verso. É uma verdadeira aula de História sobre a abolição da escravatura! Os versos: “iludidos com quinquilharias/ os negros não sabiam/ ser apenas sedução/ para serem armazenados/ e vendidos como escravos/ na mais cruel traição” mostram perfeitamente a revolta dos negros com ilusão dos escravagistas, que alegavam o Brasil ser um paraíso perfeito para viver. Mal sabiam os africanos que era mentira e que viriam para o Brasil para serem escravizados! Já no Brasil, eles se uniam para tentar se libertar da mão-de-ferro dos brancos: “formavam irmandades/ em grande união/ daí nasceram os festejos/ que alimentavam os desejos de libertação”. De repente, uma lei surgiu a favor dos torturados escravos (a partir do refrão central, o jogo começa a virar). Primeiro veio a Lei do Ventre Livre: “e de repente uma lei surgiu/ que os filhos dos escravos/ não seriam mais escravos do Brasil“, depois a dos Sexagenários: “mais tarde, raiou a liberdade/ daqueles que completassem/ sessenta anos de idade“. Foram aparecendo outras leis e os negros ganhavam cada vez mais forças. Até que a Lei Áurea foi assinada: “o sublime pergaminho/ libertação geral/ a princesa chorou ao receber/ a rosa de ouro papal”). Toda a nação abolicionista comemorava esse feito extraordinário: “uma chuva de flores cobriu o salão/ e um negro jornalista/ de joelhos beijou a sua mão“. A notícia do fim da escravidão corria chão, até o Brasil se tornar de vez o último país a acabar com a escravatura: “uma voz na varanda do Paço ecoou/ meu Deus, meu Deus/ está extinta a escravidão“. Como eu disse antes, toda a história da abolição da escravatura foi contada neste fantástico samba-enredo. Assim como “Navio negreiro” (1957), “Ilu ayê” (1972), “100 anos de liberdade ou ilusão” (1988), entre muitas outras obras, este samba é um hino a favor dos injustiçados negros brasileiros e um delírio para os bambas.

quando o navio negreiro
transportava os negros africanos
para o rincão brasileiro
iludidos com quinquilharias
os negros não sabiam
ser apenas sedução
para serem armazenados
e vendidos como escravos
na mais cruel traição
formavam irmandades
em grande união
daí nasceram os festejos
que alimentavam os desejos da libertação
era grande o suplício
pagavam com sacrifício
a insubordinação

e de repente uma lei surgiu
que os filhos dos escravos
não seriam mais escravos no Brasil

mais tarde raiou a liberdade
daqueles que completassem
sessenta anos de idade
o sublime pergaminho
libertação geral
a Princesa chorou ao receber
a rosa de ouro papal
uma chuva de flores cobriu o salão
e um negro jornalista
de joelhos beijou a sua mão

uma voz na varanda do Paço ecoou
meu Deus, meu Deus
está extinta a escravidão

PORTELA 68
Tronco do ipê
Cabana
vozes: Maninho e Catoni
[ ouça ♫ ]

Depois de uma sucessão de obras-primas, vem esse samba chatíssimo, extremamente enjoativo. Considero “Tronco do ipê”, nada menos que O PIOR SAMBA-ENREDO DA HISTÓRIA DA PORTELA! Acho pior, inclusive, que o tão criticado “Mulher à brasileira”, de 1978. O compositor desse “boi-com-abóbora” é, por incrível que parece, Cabana, o mesmo autor das obras-de-arte “Peri e Ceci” (Beija-Flor-1963) e “Ilu ayê” (Portela-1972). Sua letra fala, fala, fala e não diz absolutamente nada. Ou seja, a maior parte da obra não aborda coisa alguma sobre o enredo. Até os “ô ô ô” e os “lalalaraiá” são fracos. Do nada, o samba solta uns versos mal feitos com os nomes dos personagens constados na história. O compositor poderia se aprofundar muito mais ao falar de cada um deles e uma introdução decente cairia muito bem. Mas creio que ele preferiu passar a maior parte do samba falando que “Tronco do ipê” é uma grande obra-prima da literatura, que José de Alencar era um gênio, etc., num blá-blá-blá inútil. O trecho “muito importante e também de emoção/ foi quando Alice caiu no boqueirão” é uma esquisitice só. Parece até que cair num boqueirão é algo muito emocionante. Nos versos “Mário num esforço sobrenatural/ consumou a sua salvação” nota-se que o autor quer chamar atenção por usar palavras difíceis, mas que não fazem sentido algum, pois Mário não usou nenhum esforço sobrenatural pra “consumar a salvação” (ou melhor dizendo, salvar) Alice. A melodia também é muito mal construída, alternando entre notas demasiadamente alongadas e versos cantados com muita rapidez. Tudo isso combinado a um refrão forçado, de letra e melodia intragáveis. Enfim, o pior samba do ano, sem dúvida alguma! Curiosidade: “Peri e Ceci”, outro samba de autoria de Cabana, também é um romance de José de Alencar, tal como “Tronco no ipê”, mas é óbvio que esses dois sambas nem dão para serem comparados.

apresentamos neste carnaval
esta estória exuberante
cheia de trechos sensacionais
de episódios eletrizantes
escrita por José de Alencar
grande vulto de valor excepcional
o orgulho da literatura nacional
Tronco do Ipê
é o ponto culminante desta estória
onde o Pai Benedito fazia feitiçaria
reunia os escravos no local
e lá fazia um batuque infernal

lá lá lá lá iá…

muito importante e também de emoção
foi quando Alice caiu no boqueirão
Mário num esforço sobrenatural
consumou a sua salvação
outro fato bem marcante
foi a carta, testamento do barão
e a passagem mais bela
foi o casamento de Mário e Alice na capela
ô ô ô…

oh! que maravilha!
na casa grande
todos dançando a quadrilha

Aproveitando a postagem deste álbum, transcrevo fielmente a seguir uma publicação do jornal O Globo, abordando os desfiles das escolas no carnaval de 1968. Recomendo muito a leitura, pois, no texto, várias informações sobre o “superdesfile” de 68.

O Globo, 28 de Fevereiro de 1968, Matutina, Geral, página 10

Quase Cem Mil Viram Superdesfile Sob a Chuva

Quase cem mil pessoas assistiram domingo à noite e segunda-feira de madrugada ao “superdesfile” de escolas de samba sob intensa chuva, que só cessou durante cêrca de uma hora — exatamente no momento em que se exibia a Estação Primeira de Mangueira, campeã de 67. Apesar da chuva, ora fina ora violenta, o povo permaneceu na Avenida Presidente Vargas até às primeiras horas da tarde de segunda-feira, quando desfilou a última escola.

Mangueira foi a que recebeu mais aplausos, seguida da Portela, Unidos de Lucas, Serrano, Salgueiro e Mocidade Independente de Padre Miguel . O resultado do desfile e de todos os demais concursos de carnaval de rua será divulgado depois de amanhã, às 15 horas, no Teatro João Caetano, segundo informou o diretor de Certames, Sr. João Tedim Barreto.

Atraso

O desfile deveria iniciar-se às 20 horas de domingo mas só começou duas horas e meia depois, com a exibição da Independentes do Leblon, encerrando-se segunda-feira à tarde com a escola de Padre Miguel. Atribuiu-se o atraso à ausência de um dos jurados, João de Barros, que deveria julgar o item “bateria”; êle custou tanto a chegar que o diretor de Certames chegou a indicar Roberto Farias para substituí-lo.

João de Barros, Braguinha, chegou pouco antes do Governador Negrão de Lima, que ocupou seu lugar à beira da pista quando desfilava a Independentes do Leblon. De guarda-chuva, capa, chapéu e galochas o Governador assistiu ao desfile durante várias horas, apesar da chuva, sentado numa cadeira perto do palanque da Assembléia Legislativa. Usava terno cinza-escuro e camisa social azul, sem gravata. 79

Os jornalistas conversaram bastante com êle, trocando idéias sôbre o desfile e o mau tempo, mas não conseguiram saber qual a escola de sua preferência: êle insistiu em afirmar que aplaudiria as melhores e que o título deveria ser entregue à que mais se destacasse.

Nathalie

A atriz Nathalie Wood acompanhada de seu noivo, foi a personalidade mais observada dentre os convidados para o desfile. Mas, ficou por pouco tempo: só viu passar as escolas Unidos de São Carlos e Unidos de Vila Isabel.

Eiko Wakabayash, atriz japonêsa que contracenou com Sean Connery em 1967 num filme da série James Bond, assistiu ao desfile de um stand armado na avenida por uma emprêsa cinematográfica nacional, pois a Secretaria de Turismo não reservou arquibancadas para seus convidados. Ela estava muito alegre e aplaudiu vivamente tôdas as escolas. Disse a O GLOBO estar “maravilhada” com o Brasil e o carnaval!

— A amabilidade do brasileiro — afirmou — ultrapassou minha expectativa. Só lamento não poder ficar no Brasil uma boa temporada, mas espero voltar breve e muitas outras vêzes. Estou contagiada pela alegria dos brasileiros.

Queixas

Muita gente queixava-se de que a emprêsa que explorou a venda dos ingressos para as arquibancadas continuava a vendê-los mesmo após ocupados os lugares. O número de ingressos vendidos, segundo os reclamantes, foi superior à lotação, e isso gerou tumulto, pois os que os compraram e não tiveram acesso nos lugares acharam-se com o direito de permanecer na pista. Num trecho das arquibancadas, ao lado da numeração ímpar da avenida, o público retirou os protetores externos e, após passar sob os assentos, ganhou a acesso à área coberta. Havia cêrca de duas mil pessoas na pista de desfile, o que gerou protestos dos diretores das escolas.

O Governador Negrão de Lima disse à imprensa ter sido informado de que milhares de ingressos haviam sido falsificados e estavam sendo vendido, inclusive a porta das arquibancadas, pouco antes de começar o desfile. Mas ressaltou não ter sido oficial a denúncia. O Sr. Albino Pinheiro, da Secretaria de Turismo, retificou porém a informação: “O que aconteceu é que a firma concessionária vendeu ingressos além da capacidade das arquibancadas, causando a superlotação.”

Dupla de passistas no desfile da Unidos de Lucas no carnaval de 1968
Dupla de passistas no desfile da Unidos de Lucas no carnaval de 1968 (foto: Agência O Globo/Arquivo)

CARROSSÉIS AFINAL NÃO GIRARAM

• Os carrosséis da decoração da Avenida Presidente Vargas afinal não giraram, e a iluminação da pista estava deficiente. Davi Ribeiro, que juntamente com Adir Botelho e Fernando Santoro foi o responsável pelo projeto “Alegria. Alegria”, de decoração da Cidade para o carnaval, queixava-se muito durante o desfile, acusando a SADE de ter mutilado o projeto, ao executá-lo, e de não o ter cumprido integralmente, pois a iluminação e o funcionamento dos carrosséis estavam previstos no projeto.

• O Diretor de Certames, Sr. Tedim Barreto, reclamou do comportamento de alguns jornalistas estrangeiros, que tumultuaram a apresentação de algumas escolas.

• Natal, dirigente da Portela, pôs fim a um atrito entre O Sr. Tedim e um dos dirigentes de sua escola. Tedim queria que Portela começasse a desfilar logo após a apresentação da Unidos de Isabel, mas o portelense exigiu que se esperasse até a avenida ficar completamente desimpedida e respondeu grosseiramente ao Diretor de Certames. Natal contornou o incidente deu ordem para a escola entrar imediatamente na avenida.

• D. Beatriz, figura popular na Praia do Pinto, desfilou pelos Independentes do Leblon, e disse que ostentava uma novidade “de grande destaque”: estava estreando dentadura nova. E exibia-a alegremente.

• A atriz Dercy Gonçalves assistiu a quase todo o desfile na pista, apesar da chuva.

• A primeira sensação do desfile, capaz de arrebatar o público, foi a apresentação da escola Unidos de Lucas, que segundo os entendidos tinha o melhor samba do desfile. Clóvis Bornay e Elisete Cardoso, seus destaques, foram muito aplaudidos.

Mangueira, porém, foi a mais aplaudida. Parte do público gritava “já ganhou” após sua exibição . João de Barros, que no júri analisava “bateria” externou seu entusiasmo pela bateria da Estação Primeira de Mangueira, que durante todo o longo desfile da escola ficou postada em frete a seu palanque. Fêz um gesto de aprovação para o chefe da bateria. A seu lado Ricardo Cravo Albin que julgava o item “desfile”, cantava o samba da Mangueira.

• Salgueiro entrou abafando, mas declinou no restante da apresentação. Só ganharam ovação popular os seus destaques — as Irmãs Marinho e Isabel Valença, caracterizando D. Beja aos 35 anos.

• O público esperava mais da Unidos de Vila Isabel que perdeu longe em brilho para a Unidos de Lucas. Apresentou, porém, um bonito figurino. Seu samba-enrêdo não contagiou o povo.

Segundo os críticos, as mais belas alegorias da noite eram as da Portela , e as da Mangueira eram inferiores às que apresentou ano passado.

• Muita gente entrou na pista, prejudicando o trabalho de fotógrafos e cinegrafistas. E os penetras eram os que mais reclamavam quando alguém lhes atrapalhava a visão.

• Num carro aberto Zé Kéti — o Cidadão Samba de 1968 — e o Rei Momo, Abrahão Haddad, abriram o desfile sob uma chuva fina. Quando Zé Kéti passou, o povo cantou a marcha campeã do carnaval de 1967, ‘Máscara negra”, de sua autoria.

• O policiamento ficou a cargo da Polícia Militar. O grande número de soldados espalhados por tôda a área do desfile — mais de mil — não impediu, porém, que o povo invadisse a pista. Os soldados foram também encarregados de dar orientação aos jornalistas, principalmente aos estrangeiros, sôbre o local onde poderiam operar.

Mangueira foi a que recebeu mais aplausos, seguida da Portela, Unidos de Lucas, Serrano, Salgueiro e Mocidade Independente de Padre Miguel.

O Globo

AS ESCOLAS UMA A UMA

Além de ter sido bastante prejudicada pela chuva, a Independentes do Leblon não satisfez as exigências feitas às escolas do primeiro grupo. Uma ou outra figura de destaque feminino apresentou a agremiação da Praia do Pinto, que não exibiu fantasias de originalidade e de destaque de luxo masculino. Também tinha poucas alas. Em 1967, quando debutava no “superdesfile”, a chuva também prejudicou o desfile da escola.

A Unidos de São Carlos estreou entre as grandes escolas auspiciosamente. Com grande número de alas e apreciável variedade de fantasias, a escola subvencionada pelos Irmão Veloso (Casas da Banha) garantiu, na opinião geral, sua permanência entre as grandes para o próximo ano. Um par de bons mestres-salas e porta-bandeiras, um enrêdo bem explorado. Visita ao Museu Imperial, e a aceitável melodia e harmonia de seu conjunto supriram as deficiências, como a letra do samba.

UNIDOS DE LUCAS

Uma vez mais a Unidos de Lucas, resultado da fusão de duas escolas — Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela — justificou em desfile tudo aquilo que se disse dela no período pré-carnavalesco. Embora desfilando sob intensa chuva, seus figurinos chamaram a atenção geral, destacando-se do conjunto os de Elisete Cardoso e do costureiro Clóvis Bornay. Seu samba foi um dos mais aplaudidos, apesar do desnível entre a qualidade da letra, boa, e da melodia, inferior. Mas ainda assim a Unidos de Lucas que participa pela segunda vez do “superdesfile”, conseguiu satisfazer as exigências feitas para a permanência no “superdesfile”. Sublime pergaminho, inspirado na Abolição, foi seu enrêdo.

VILA ISABEL

Sem contar êste ano com a orientação da Portela mas com a presença dos componentes do bloco Barriga, a Unidos de Vila Isabel não agradou tanto ao público como sua antecessora. Os que dela, tendo em vista sua atuação ano passado, esperavam algo de espetacular, ficaram decepcionados. Apresentou um samba razoável sôbre, Quatro séculos de modas e costumes, alegorias e fantasias pouco inspiradas, salvando-se do destaque Pildes Pereira e uma bateria bem ritmada mas que prejudicou bastante a harmonia da escola. A chuva prejudicou as evoluções e em matéria de conjunto só se pode falar de uma grande quantidade de alas.

PORTELA

Bem melhor que nos últimos dois anos foi a apresentação da Portela já na madrugada de domingo e no exato momento em que a chuva começou a aumentar de intensidade, prejudicando bastante o rendimento do conjunto da escola. Vinda de um sexto lugar, a Portela justificou tudo aquilo que diziam seus dirigentes quanto a suas aspirações ao título. Suas alegorias foram as mais originais.

Seu abre-alas era uma águia monumental sob um tronco de madeira, sugerida pelo enrêdo. O tronco do ipê, baseado na obra de José de Alencar. Seu primeiro carro era a varanda da Casa Grande onde vivia Alice, personagem central da história, com seus pais. O segundo carro era uma cachoeira que jorrava água graças ao auxílio de uma bomba hidráulica. A última alegria era a cabana onde Pai Bendito, um dos personagens da história, fazia seus batuques. Êste carro tinha guarnições desmontáveis. Visto de fora, era um barraco que se desdobrava deixando ver tosca cabana. Também foram muito aplaudidas suas fantasias, destacando-se entre estas a de Vera Lúcia Calixto, “Alice adolescente”, e a baiana de Odila, que a partir dêste ano, segundo prometeu não se apresentará mais com destaques luxuosos.

MANGUEIRA

Á passagem da Estação Primeira de Mangueira a chuva, que tanto prejudicou a Portela, fêz uma pausa, e isso ajudou a realçar a harmonia do conjunto. A exemplo do que ocorreu em 67, o povo cantou o samba da escola que levou cêrca de duas horas para desfilar . Com fantasias originais, embora pouco inspiradas, Mangueira apresentou uma infinidade de alas que faziam vibrar o povo. Suas alegorias também melhoraram êste ano com a contratação do cenógrafo Laurênio Soares que fazia os carros da Portela. Na sua bateria destacou-se, novamente, a ala de tamborins. Gigi, Clementina de Jesus e Anik Malvil foram seus destaques. O mestre-sala Delegado garantiu sua parte, enquanto os sambistas sustentavam a harmonia e a evolução da escola. A Mangueira homenageou todos os grandes compositores já falecidos, tendo por tema a evolução de nossa música popular, Samba a alegria de um povo foi seu enrêdo.

SALGUEIRO

Em fase adversa, a Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro não se apresentou com o mesmo sucesso que fêz aumentar seu prestígio nos carnavais de 1963, 64 e 65. Embora atendendo a todos os quesitos, a escola de Chica da Silva mostrou ao observador exigente a limitação criadora dos responsáveis pelo seu carnaval, que se repetiram inclusive na apresentação das burrinhas que em 1965 foram seu abre-alas, e na confecção da fazenda de Jatobá, onde viveu D. Beja, cuja vida e amores foram o tema. Suas alegorias, feitas nos últimos dias da semana passada também não chegaram a impressionar, mesmo porque, entre estas a escola apresentou uma carroça verdadeira, em que uma das componentes da escola representava D. Beja na adolescência. Contudo o Salgueiro arrancou aplausos dos seus adeptos e do público em geral, pela originalidade de suas fantasias. A grande redução do número de componentes prejudicou bastante a escola no quesito evolução e conjunto. As Irmãs Marinho e Isabel Valença, está representando D. Beja aos trinta anos, voltaram a arrebatar o público.

TIJUCA

O pequeno número de componentes comprometeu a apresentação da Império da Tijuca, a oitava escola a se exibir, às primeiras horas da manhã de segunda-feira. A Impressão causada a muitos pela Império da Tijuca é que dificilmente continuará nos próximos anos no primeiro grupo.

IMPÉRIO SERRANO

Melhor que ano passado, o Império Serrano causou boa impressão. Seu conjunto de fantasias foi um dos pontos altos, quer pela originalidade quer pelo luxo ou pela inspiração de seus figurinos. Tal, no entanto, não aconteceu com as alegorias: suas figuras apresentavam traços grosseiros e no primeiro carro os bonecos estavam cobertos com panos.

PADRE MIGUEL

Este ano, a Mocidade Independente de Padre Miguel procurou justificar as afirmações de seus diretores de que a escola tinha algo mais que a sua já famosa bateria, a melhor de tôdas as escolas. Em seu enrêdo Viagem pitoresca através do Brasil, a Mocidade Independente procurou mostrar as diversas regiões brasileiras, mas sem incorrer no êrro de outras escolas, que nos anos anteriores acentuam detalhes já muito explorados. Baiana, pescadores e gaúchos foram apresentados de forma original. A padronagem de seus tecidos foi também uma demonstração do esfôrço de seus responsáveis para que a escola, no futuro, obtenha colocações tão honrosas como a Unidos de Lucas ou a Unidos de Vila Isabel. Mas seu forte foi como sempre a bateria que, ao passar, fêz vibrar a assistência que esqueceu, o brilho da Mangueira, Portela, Salgueiro e Unidos de Lucas e acompanhou-a aos gritos de já ganhou.

O JÚRI

O júri do “superdesfile” foi constituído dos seguintes nomes: Danúbio Galvão, figurinista, fantasias e comissão de frente; Inácio Guimarães, escritor, enrêdo e letra do samba; João de Barro, compositor, bateria; Johnny Franklin, dançarino, coreografia do mestre-sala e da porta-bandeira; Napoleão Muniz Freire, cenógrafo, escultura; Claudio Basbateíano, harmonia e melodia; e Ítalo Oliveira, evolução e conjunto. Julgaram o quesito desfile, Maurício Shermam, produtor de tevê; Sandra Dickens, bailarina; e o o diretor do Museu da Imagem e do Som, Ricardo Cravo Albim.

As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968

1968, Museu da Imagem e do Som (MIS 003)
Ouça no spotify, youtube ou itunes | discogs
DISCO É CULTURA

Considerações finais

Quando Getúlio Vargas chegou à presidência da república, em 1930, viu no carnaval carioca uma forma de unificar o país. O samba-enredo, um dos meandros das canções carnavalescas, nasceu no começo do século XX e só foi eternizado pela primeira vez em 1968, em um long play encomendado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. O disco, intitulado — AS DEZ GRANDES ESCOLAS CANTAM PARA A POSTERIDADE SEUS SAMBAS-ENRÊDO DE 1968 — abriu as portas para a popularização de uma festa que antes era tida como marginal. A partir daí, o registro fonográfico dos sambas-enredos cariocas nunca mais parou. Espero que você tenha gostado desse post com o álbum dos sambas-enredo de 1968 lançado pelo MIS.

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