LP Cartola 1974

cartola – 1974

Muito tempo levou para que Cartola lançasse seu primeiro disco, homônimo, que chegou às lojas em 1974, pela gravadora Marcus Pereira. Assim como é impossível falar de samba sem citar seu nome, é impensável falar da discografia nacional sem citar seus álbuns.


Finalmente um LP com o grande Cartola! Foi preciso que nascesse uma nova gravadora, a Marcus Pereira, para que fosse dada ao fundador da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, ao maior compositor de todos os tempos dos morros cariocas, a mesma honra já concedida a centenas de nomes surgidos com a mesma rapidez com que desapareceram do panorama de nossa música popular.

Aos 65 anos de idade, Cartola mostra neste disco a razão pela qual é uma legenda e uma lenda do samba . A legenda todo mundo entende. Quanto à lenda, explico melhor. Houve um tempo — bem depois de Cartola ter sido descoberto nos idos de 1930 pelos grandes cantores da época — que o sambista desapareceu do morro e do samba. Muita gente pensava até que ele tivesse morrido e vários sambas falavam dele: “tenho saudades do terreiro da escola/ lindos sambas do Cartola”, dizia um de Herivelto Martins; “antigamente havia grande escola/ lindos sambas do Cartola”, dizia outro de Pedro Caetano. E Cartola só foi redescoberto em fins dos anos 50 pelo inesquecível Sérgio Porto numa atividade nada condizente para a grandeza do seu nome, era lavador de carros de uma garagem de Ipanema.

Mas hoje todas as pessoas ligadas de qualquer forma ao samba reconhecem a sua importância. Ele não só fundou a Estação Primeira como lhe deu nome e as cores verde-e-rosa: Foi o seu primeiro diretor de harmonia. Um dos seus sambas, “Quem me vê sorrindo”, foi gravado por Leopoldo Stokovsky para a Columbia norte-americana, por indicação de Villa-Lobos. Villa-Lobos, aliás, era um grande admirador de Cartola e o convidou várias vezes para participar de espetáculos que promovia. Foi parceiro de Noel Rosa e seus sambas foram gravados por intérpretes como Francisco Alves, Mário Reis, Sílvio Caldas, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e Paulinho da Viola. São muitos, portanto, os títulos de Cartola, o mestre de tantos compositores importantes (o próprio Paulinho da Viola o aponta como a sua grande influência). Mas talvez nenhum seja tão expressivo quanto ao que lhe foi atribuído pelo extraordinário Nelson Cavaquinho numa entrevista que me concedeu. Perguntei a Nelson qual, na sua opinião é o maior compositor da nossa música. Ele não hesitou:

— Cartola!

Sergio Cabral
contracapa

André Picolotto escreveu em “DISCOS MARCUS PEREIRA – Uma História Musical do Brasil”, as linhas que transcrevo a seguir, sobre esse primeiro álbum de Cartola.

Cartola, aos 65 anos

Angenor de Oliveira, o Cartola, tinha o hábito de acordar cedo, todos os dias. Regava as plantas do jardim, saía, comprava pão e jornal, tomava um copo de cerveja, outro de conhaque, voltava. Só ia trabalhar depois do almoço preparado pela esposa, dona Zica, com quem morava no Morro da Mangueira. Então, hora da sesta, ia dormir, e que não fossem acordá-lo. Naqueles primeiros anos da década de 70, o poeta era contínuo de repartição pública, servindo cafezinho em gabinete de ministro. O emprego, arranjado por amigos, dava-lhe uma renda fixa mensal, a
complementar a de shows eventuais, de algum direito autoral.

Até que o produtor João Carlos Botezelli, o Pelão, lhe bateu à porta e propôs fazer seu primeiro Lp, para a gravadora Discos Marcus Pereira. Era começo de 1974, Cartola tinha 65 anos.

Antes, participara apenas de gravações ocasionais, sempre dividindo espaço com outros artistas. A primeira vez foi a bordo do navio Uruguay, que aportou na costa do Rio de Janeiro em 1940. Dentro da política de boa vizinhança do presidente Franklin Roosevelt, o maestro Leopold Stokowski vinha registrar artistas populares do Brasil. E Cartola, indicado a Stokowski por Heitor Villa-Lobos, cantou um samba de sua autoria, num disco — Native Brazilian Music — com canções de Pixinguinha, Donga, Jararaca & Ratinho, João da Bahiana, Zé da Zilda. Participou também, em 1968, do LP Fala Mangueira!, ao lado de Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Odete Amaral e Carlos Cachaça, seu amigo e maior parceiro.

Cartola fora um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, em 1928, e grandes nomes da música brasileira, de diferentes eras, gravaram suas composições. Teve o primeiro samba vendido para Mário Reis em 1929, quando tinha 21 anos. Em 1933, Francisco Alves fez sucesso com “Divina dama”, o que valeu a Cartola a alcunha de “Divino”, dada pelo jornalista Lúcio Rangel . Mas depois de alguma popularidade nos anos 30 e 40, viúvo da primeira esposa, Deolinda, e curando-se de uma meningite, Cartola sumiu da Mangueira e da música. Muitos o davam como morto.

Redescoberto na década de 50 pelo jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, lavando carros num estacionamento de Ipanema, o poeta voltou, devagar, a ser presença no cenário musical da época. Fundou com dona Zica um restaurante de sucesso, o Zicartola; ali, músicos da nascente bossa nova misturavam-se aos grandes compositores do samba — ele, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Ismael Silva. O interesse renovado fez com que Nara Leão gravasse “O sol nascerá”, parceria de Cartola e Elton Medeiros, em seu LP de estreia, de 1964. Durou pouco; o Zicartola falido, o casal volta, endividado, à existência humilde do morro. Mas os sambas de Cartola seguem no rádio, com Elizeth Cardoso, Cyro Monteiro, Gal Costa, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Elza Soares.

Faltava apenas o autor gravar sua obra. A oportunidade chegou — na velhice.

Se Cartola acumulava, em 1974, carreira musical de quase cinco décadas, João Carlos Botezelli, o Pelão, não completara nem um ano como produtor de discos. Mas seus dois LPs até então — de Nelson Cavaquinho e Adoniran Barbosa, ambos para a Odeon — renderam prêmios, imprensa, reconhecimento. E, da mesma forma que Cartola, Nelson e Adoniran eram artistas de longa história e reconhecimento tardio na música popular brasileira.

Nascido em São José do Rio Preto, descendente de italianos, Pelão começou a frequentar, em meados dos anos 60, os bastidores do show Opinião, onde fez amizade com vários compositores da velha guarda do samba carioca. Morava em São Paulo, mas ia ao Rio de Janeiro, com o pouco dinheiro que tinha, só para ver as apresentações. “Depois saía com o Nelson Cavaquinho pra beber. E o Nelson é três dias e três noites, direto. Sem dormir”, conta, em entrevista no seu apartamento no bairro Perdizes, em São Paulo. “Ali eu conheci muita coisa. E você conhecendo uma pessoa que é bom caráter, que é sério, nesses lugares, você constrói tudo, rapidinho.”

Numa visita a conhecidos na Odeon, em 1973, pediu que fosse apresentado ao diretor artístico da gravadora, Milton Miranda, que o recebeu perguntando qual disco gostaria de produzir. “Nelson Cavaquinho”, respondeu. Miranda aprovou a ideia na hora. E Pelão decide gravar, no estúdio, o amigo do jeito como ele era — a voz rouca, o estilo único de tocar violão, com apenas dois dedos, acompanhado de músicos e arranjos a valorizar essas características —, numa primeira marca de sensibilidade que repetiria em toda a carreira. Estreia, assim, com um clássico

A repercussão positiva lhe rendeu a chance de produzir, logo em seguida, o primeiro LP de Adoniran Barbosa. Mas não tinha, com Cartola, a mesma sorte. Por alguma razão, as grandes gravadoras negavam o sambista da Mangueira. “Eu passei em todas. RCA, Polygram. Todas. Chegaram a falar pra mim que ali não era asilo de velhos. E eu falei: ‘Tá bom’”.

Nessa época, recebeu convite do amigo Théo de Barros para trabalhar como produtor na Discos Marcus Pereira, pequena gravadora paulista inaugurada meses antes. Théo, também produtor no selo, fora violonista do Quarteto Novo e coautor, com Geraldo Vandré, de “Disparada”, canção vencedora do Festival de 1966 da TV Record, na voz de Jair Rodrigues.

Pelão foi conversar com Aluízio Falcão, diretor artístico e sócio da Discos Marcus Pereira. A gravadora, fundada pelo publicitário Marcus Pereira, queria editar música brasileira ignorada no mercado fonográfico da época — seu primeiro grande trabalho, lançado comercialmente em 1973, era uma coleção de música folclórica da região Nordeste. E iam continuar com a documentação de estilos tradicionais da região Centro-Oeste e Sudeste. Aceitou o convite. Aluízio o colocou numa mesa em frente da sua. “A gente batia muito papo, resolvia tudo”

Aos 65 anos de idade, Cartola mostra neste disco a razão pela qual é uma legenda e uma lenda do samba.

André Picolotto

E cedo começou a propor o nome de Cartola. Mas até ali encontrava resistência, notadamente, segundo ele, pelo dono da gravadora, Marcus Pereira. Até que uma noite, quando percorria seu roteiro habitual de bares, Pelão, “do jeito que o diabo gosta”, chegou no Jogral, na Rua Maceió, perto da Consolação. Lá encontrou Aluízio Falcão. O diretor artístico “não aguentava ficar em pé”.

“Lula” — assim o chamava; Pelão narra as histórias da época na forma de diálogos — “pelo amor de Deus, eu quero produzir o Cartola”.
Ajoelhou, fez um drama.
“Amanhã de manhã a gente conversa”.
Às onze horas, na sede da gravadora, os dois sóbrios:
“E aí, Lula?”
“Vai pro Rio e faz o Cartola”.

Chegando à capital carioca, Pelão apenas deixou suas coisas no hotel em que costumava ficar — o Bragança, na Lapa — e ali mesmo pegou um táxi para a casa de Cartola, na Mangueira.
“Dona Zica, tudo bem? O Cartola tá aí?”
“Tá sim, Pelão.”
Cartola dormia atravessado, num canto. Acordou. Disse, sentado:
“E aí, como é que tá São Paulo, Pelão?”
“Tá tudo bem, Cartola. E você, tá bem?”
“Tô indo.”
“Vamos gravar o disco?”
“Você tá brincando.”
“Vamos.”
“Quando?”
“A semana que vem.”
Cartola deu um pulo, ficou esperto.
“A gente vai gravar que músicas, como?”
“Só você. Você do jeito que você é. Com Canhoto, Dino e Meira. Marçal, Luna, Eliseu.”
“E as músicas?”
“Eu escolho. Tá ok?”
“Tá ok.”
“Beijo.”
“Beijo. Vamos tomar uma cerveja?”
“Não, deixa pra depois.”

Resolvida essa questão, Pelão saiu da Mangueira direto até a sede da RCA Victor, em Copacabana, e reservou um estúdio da multinacional para a semana seguinte; a Marcus Pereira não tinha estúdio de gravação próprio. De novo em São Paulo, avisou a direção que Cartola aceitara o convite e que ele, Pelão, voltaria ao Rio nos próximos dias para produzir o Lp.

Na primeira sessão de gravação, em 20 de fevereiro de 1974, Cartola estava acompanhado por alguns dos melhores músicos populares do país. Dino Sete Cordas, Meira e Canhoto nas cordas; Raul de Barros no trombone, Copinha na flauta; no ritmo, Marçal, Luna, Gilberto e Jorginho. “Só era bambambã”, recorda Pelão. E, para cantar melhor, o produtor sugeriu a Cartola que tirasse a dentadura. Deu certo. Sem arranjos pré-estabelecidos, bastaram quatro sessões para o disco ficar pronto: doze canções, todas do compositor ou em parceria; de “Disfarça e chora” a “Alegria”, passando por “Corra e olha o céu”, “Acontece”, “O sol nascerá” e “Alvorada”— 28 minutos históricos para a música brasileira.

Quando volta a São Paulo com a fita, vem a surpresa: Marcus Pereira não gosta do que ouve. Implica, particularmente, com o que julga ser um cachorro latindo na gravação. “O cachorro era o Marçal, a cuíca do Marçal. Era de madeira, de barrica, ainda a primeira, foi o pai dele que deu pra ele, o velho Marçal, da dupla Bide e Marçal”, conta o produtor. “Aí eu fiquei puto”

O lançamento adiado, Pelão vai ao Jornal da Tarde enviar, por malote, uma cópia da fita a Alberto Helena Júnior, que cobria a Seleção Brasileira antes da Copa do Mundo da Alemanha e “era um puta fã do Cartola, conhecia o Cartola”. Na redação topou com Maurício Kubrusly, crítico de música do jornal

“Ô, Pelão, tudo bem?”
“Tudo.”
“O que que você tá fazendo?”
“Eu já não tô fazendo mais, já fiz.”
“O que que você fez?”
“Gravei o Cartola.”
“PORRA, mas como?”
“O Cartola. Com Canhoto, Dino e Meira. Jorginho do Pandeiro, Luna, Marçal. E mais umas coisinhas, pouquinhas, e tá pronto o disco.”
“Pô, e vai sair por onde?”
“Pela Marcus Pereira. Ia sair, não sei se vai sair. Depende deles, né?”

Dias depois, num sábado de manhã, Pelão vai a padaria, compra o Jornal da Tarde e encontra, no Caderno 2, uma nota com a manchete: “Está gravado o melhor disco do ano”. Era o que faltava para o LP ser aprovado.

A Discos Marcus Pereira lança Cartola em junho de 1974. Na capa, uma foto preta e branca do sambista, sorriso largo, de camisa meio aberta, os costumeiros óculos escuros, a ponta do nariz levemente mais escura, da cirurgia para curar a rosácea. Os créditos são de Alexandre Silva Bauer e Gaia Piovesan Faro — homenagem de Pelão a dois afilhados seus, crianças na época. A autoria da imagem, na verdade, é dele.

“A gente fez isso tudo rápido, correndo e ganhando pouco. Ou quase nada. Mas aí não vai ao caso. Me interessa que o que eu fiz ficou pro povo”, diz o produtor, cigarro sempre entre os dedos, um gole de café, tosse, a voz rasgada, áspera, tosse — como Nelson Cavaquinho. Aos 74 anos, Pelão caminha devagar até seu escritório, abarrotado de discos, livros, molduras. Mostra o que ganhou: a famigerada cuíca de Marçal, um abajur e uma bicicletinha confeccionados por Adoniran Barbosa, quadros autografados por Nelson, Cartola, dona Zica, Carlos Cachaça. Presentes de amigos.

“O meu objetivo na vida sempre foi política. Minha formação é escola agrícola. Desde novo eu já fui estudar em escola agrícola. Eu fiz projetos de reforma agrária, fiz tudo. Meu negócio era política. Mas chegou uma hora, me encheu o saco a política, eu falei: ‘Tenho que achar outro jeito pra fazer uma revolução’. Que que eu faço? Vou dar voz pro povo. Eles cantando as coisas deles. Eles que falam o que sentem, o que tá certo, o que tá errado. Veja o Adoniran, veja o próprio Nelson. E o Cartola… não se fala do Cartola”.

O disco foi um sucesso de crítica e público. “É o primeiro LP de um dos poucos gênios da música popular brasileira”, escreveu José Ramos Tinhorão, no Jornal do Brasil. “Só a perspectiva histórica permitirá compreender sua verdadeira importância”. E os anos confirmaram o que já se previa na época — Cartola se consolidou como um dos grandes discos do Brasil.

Num outro plano, a gravação representou mudança significativa na vida do compositor. O sucesso lhe permitiu continuar o registro de sua obra em mais três Lps — mais um na Marcus Pereira, outros dois na RCA. Os shows tornaram-se constantes. Com o dinheiro, construiu uma casa simples em Jacarepaguá. Comprou seu primeiro carro. Os anos de pedreiro, tipógrafo, lavador de carros, contínuo de repartição pública e dono de bar ficaram no passado. Pode enfim viver tranquilo, ao lado de dona Zica, seus últimos anos.

“Minha vida é como um filme de mocinho”, disse. “Acabei vencendo quase no final”. Cartola morre em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos, de complicações de um câncer na tireoide


Cartola

1974, Discos Marcus Pereira (403.5007)
Ouça no spotify, youtube ou itunes | discogs
DISCO É CULTURA

Cartola
Cartola (foto: Reprodução)

Repertório

Lado A

Disfarça e chora
Cartola – Dalmo Casteli
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (pandeiro, surdo), Jorginho (pandeiro), Meira (violão), Wilson Canegal (ganzá)
[ ouça ♫ ]

chora, disfarça e chora
aproveita a voz do lamento
que já vem a aurora
a pessoa que tanto queria
antes mesmo de raiar o dia
deixou o ensaio por outra
ó triste senhora

disfarça e chora
todo o pranto tem hora
e eu vejo seu pranto cair
no momento mais certo
olhar, gostar só de longe
não faz ninguém chegar perto
e o seu pranto, ó triste senhora
vai molhar o deserto

Sim
Cartola – Oswaldo Martins
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (pandeiro, surdo), Jorginho (pandeiro, caxixi), Luna (tamborim), Marçal (cuíca), Meira (violão)
[ ouça ♫ ]

sim
deve haver o perdão
para mim
senão nem sei qual será
o meu fim
para ter uma companheira
até promessas fiz
consegui um grande amor
mas eu não fui feliz
e com raiva para os céus
os braços levantei
blasfemei
hoje todos são contra mim

todos erram neste mundo
não há exceção
quando voltam à realidade
conseguem perdão
porque é que eu, senhor
que errei pela vez primeira
passo tantos dissabores
e luto contra a humanidade inteira?

Corra e olhe o céu
Cartola – Dalmo Casteli
Canhoto (cavaquinho), Copinha (flauta), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (pandeiro),Jorginho (pandeiro), Marçal (cuíca, caixa de fósforos), Meira (violão), Raul de Barros (trombone), Wilson Canegal (ganzá)
[ ouça ♫ ]

linda
te sinto mais bela
e fico na espera
me sinto tão só, mas
o tempo que passa
em dor maior, bem maior

linda
no que se apresenta
o triste se ausenta
fez-se a alegria
corra e olhe o céu
que o sol vem trazer
bom dia

Acontece
Cartola
Dino (violão 7 cordas)
[ ouça ♫ ]

esquece o nosso amor, vê se esquece
porque tudo no mundo acontece
e acontece que eu já não sei mais amar
vai chorar, vai sofrer,
e você não merece
mas isso acontece

acontece que o meu coração ficou frio
e nosso ninho de amor está vazio
se eu ainda pudesse fingir que te amo
ai, se eu pudesse
mas não quero, não devo fazê-lo
isso não acontece

Tive sim
Cartola
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (surdo, pandeiro), Jorginho (caxixi, pandeiro), Meira (violão), Wilson Canegal (ganzá)
[ ouça ♫ ]

tive, sim
outro grande amor antes do teu
tive, sim
o que ela sonhava eram os meus sonhos e assim
íamos vivendo em paz
nosso lar…
em nosso lar sempre houve alegria
eu vivia tão contente
como contente ao teu lado estou
tive, sim
mas comparar com o teu amor seria o fim
e vou calar
pois não pretendo amor te magoar

O sol nascerá
Cartola – Elton Medeiros
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (surdo, pandeiro), Jorginho (pandeiro), Luna (tamborim), Marçal (cuíca), Meira (violão)
[ ouça ♫ ]

a sorrir
eu pretendo levar a vida
pois chorando
eu vi a mocidade perdida

fim da tempestade
o sol nascerá
finda esta saudade
hei de ter outro alguém para amar

Lado B

Alvorada
Cartola – Carlos Cachaça – Hermínio Bello de Carvalho
Canhoto (cavaquinho), Coro do Joab (vozes), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (surdo), Jorginho (caxixi), Luna (tamborim), Marçal (cuíca), Meira (violão)
[ ouça ♫ ]

alvorada lá no morro, que beleza
ninguém chora, não há tristeza
ninguém sente dissabor
o sol colorindo
é tão lindo, é tão lindo
e a natureza sorrindo, tingindo, tingindo

você também me lembra a alvorada
quando chega iluminando
meus caminhos tão sem vida
e o que me resta é bem pouco
ou quase nada, do que ir assim, vagando
numa estrada perdida

Festa da vinda
Cartola – Nuno Veloso
Canhoto (cavaquinho), Copinha (flauta), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (pandeiro, surdo), Jorginho (pandeiro), Luna (tamborim), Marçal (cuíca), Meira (violão), Raul de Barros (trombone)
[ ouça ♫ ]

eu e meu violão
vamos rogando em vão, o seu regresso
se soubesses como choro e como peço
pra que nosso fracasso
se transforme em progresso
apesar de todo erro espero ainda
que a festa do adeus
seja a festa da vinda

já perdi tantos amores, não notei diferença
pensei que passavam séculos sem a sua presença
misturada entre as pedras preciosas do mundo
com um simples olhar, a você não confundo

Quem me vê sorrindo
Cartola – Carlos Cachaça
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (pandeiro, surdo), Jorginho (pandeiro, caxixi), Marçal (cuíca), Meira (violão), Wilson Canegal (ganzá)
[ ouça ♫ ]

quem me vê sorrindo, pensa que estou alegre
o meu sorriso é por consolação
porque sei conter, para ninguém ver
o pranto do meu coração

o que eu perdi por esse amor, talvez
não compreendestes e se eu disser não crês
depois de derramado, ainda soluçando
tornei-me alegre, estou cantando

compreendi o erro de toda humanidade
uns choram por prazer e outros com saudade
jurei e a minha jura jamais eu quebrarei
todo pranto esconderei

Amor proibido
Cartola – Aluizio Dias
Canhoto (cavaquinho), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (pandeiro), Meira (violão)
[ ouça ♫ ]

sabes que vou partir
com os olhos rasos d´agua
e o coração ferido
quando lembrar de ti
me lembrarei também
deste amor proibido

fácil demais
fui presa
servi de pasto
em tua mesa
mas fique certa que jamais
terás o meu amor
porque não tens pudor

faço tudo para evitar o mal
sou pelo mal perseguido
só o que faltava era esta
fui trair meu grande amigo
mas vou limpar a mente
sei que errei
errei inocente

Ordenes e farei
Cartola
Canhoto (cavaquinho), Coro do Joab (vozes), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (pandeiro, surdo), Jorginho (pandeiro), Luna (tamborim), Marçal (cuíca), Meira (violão), Raul de Barros (trombone)
[ ouça ♫ ]

meu amor, minha flor
teu olhar reluz inspira amor, seduz
quando te vejo sinto em mim um calor
só por ti, sofrerei
até condenado, à morte serei meu amor

os teus olhos tão lindos da cor do luar
os teus olhos que fazem meus olhos chorar
escravizado para sempre serei
estarei a teu lado o que precisares ordenes, farei

Alegria
Cartola
Canhoto (cavaquinho), Coro do Joab (vozes), Dino (violão 7 cordas), Gilberto (surdo, pandeiro), Luna (tamborim), Luna (agogô), Marçal (cuíca), Meira (violão), Wilson Canegal (reco-reco)
[ ouça ♫ ]

alegria
era o que faltava em mim
uma esperança vaga
eu já encontrei
pelos carinhos que me faz, me deixa em paz
não te quero ver, para nunca mais

eu sei
que teus beijos e abraços
tudo isso não passa
de pura hipocrisia
já que tu não és sincera
eu vou te abandonar
um dia


Ficha técnica

PRODUÇÃO: J C Botezeli / ARRANJOS, REGÊNCIA: Maestro Horondino José da Silva “Dino” / MÚSICOS: Jayme Thomas Florêncio “Meira” (violão), Waldomiro Frederico Tramontano “Canhôto” (cavaquinho), Raul Machado de Barros “Raul de Barros” (trombone), Nicolino Copia “Copinha” (flauta), Gilberto d´Avila “Gilberto” (surdo e pandeiro), Nílton Delfino Marçal “Marçal” (cuíca e caixa de fósforo), Roberto Bastos Pinheiro “Luna” (tamborim e agogô), Jorge José da Silva “Jorginho” (pandeiro e caxixi), Wilson Canegal (ganzá e reco-reco), Joab Lopes Teixeira “Joab” (coral) / TÉCNICO DE GRAVAÇÃO: Paulo Frazão / FOTO: Alexandre Silva Bauer e Gaia Piovesan Faro

Considerações finais

Cartola é o álbum de estréia de Angenor de Oliveira (Cartola), lançado em 1974, quando o músico tinha 65 anos. Com produção de João Carlos Botezelli (conhecido como Pelão), direção artística de Aluizio Falcão e arranjos de Dino 7 Cordas, o disco Cartola foi lançado pelo selo Marcus Pereira e contém alguns dos seus maiores clássicos, como “Tive sim”, “Alvorada” e “O sol nascerá”. Em 2007, a revista Rolling Stone o colocou na 52ª posição na lista dos 100 maiores discos da música brasileira.


Intérprete(s):

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