LP Festival de samba – Gravado ao vivo

festival de samba – gravado ao vivo

O primeiro volume do “Festival de samba” tem gravação “ao vivo” e qualidade de som ruim. Entretanto, a péssima qualidade de gravação acaba tornando as performances mais “energizadas”, como se todos aqueles que estavam participando da gravação estivessem em um verdadeiro transe coletivo.

Em 1968, foram lançados dois LPs que reuniam os sambas-enredo apresentados naquele carnaval: “As dez grandes escolas cantam para a posteridade seus sambas-enrêdo de 1968″, produzido pelo Museu da Imagem e do Som (MIS); e “Festival de samba” (este post), pela gravadora Discnews. Enquanto o primeiro tinha um propósito documental, o segundo daria início à prática e gravação e lançamento de discos anuais de samba-enredo que perdura até hoje.


Infelizmente, faltaram os sambas de três escolas nesse “Festival de samba”, disco da Discnews: (São Carlos, Império da Tijuca e Independentes do Leblon). Ambas as gravações são muito precárias, tendo o objetivo (malsucedido) de priorizar a voz do cantor. Na primeira, os sambas são cantados só pelo intérprete. Na segunda passada, a bateria entra com as pastoras . Primeiro, que a bateria mais parece uma batucada mal feita com latas, gerando um som oco, nada cadenciado. Segundo, que na maioria das faixas as pastoras aparecem muito desafinadas.

Se a gravadora já sabia bem o tipo de gravação que ela tinha na época, por que forçar tanto a barra? Voltando a falar da bateria, eles pegaram somente uns poucos caras tocando alguns instrumentos de uma bateria convencional e botaram pra gravar. Conheço muitos discos da época e até mais antigos que têm qualidade de gravação muito melhor que este “Festival de samba”. Portanto, os “recursos disponíveis na época” não são justificativa para isso. Para outros que dizem que a gravação deixou o povão mais próximo do desfiles, ainda tenho minhas dúvidas. Eu vi há pouco tempo um vídeo com o desfile do clássico imperial “Heróis da liberdade” em 1969. A emoção passada na avenida é algo completamente diferente desta precária gravação. Porém, nada abala a safra memorável deste ano, com três obras primas: “Sublime pergaminho”, “Dona Beja, feiticeira de Araxá” e “Exaltação a Portinari” . Outras escolas também fizeram grandiosos sambas este ano, como Vila Isabel, Império Serrano, Mocidade e a bicampeã Mangueira.

“Sublime pergaminho” é a grande contribuição da Unidos de Lucas para o carnaval carioca e o grande samba de 1968.

Repertório

Lado A

SALGUEIRO 68
D. Bêja – Feiticeira de Araxá
Aurinho da Ilha
[ ouça ♫ ]

Aurinho da Ilha, parceiro maior de Didi na União da Ilha, emplacou essa belíssima composição na escola “nem melhor, nem pior, apenas diferente”, em 1968. O samba é tão bem construído que a gente até esquece que ele não possui refrões. Conta o enredo de forma brilhante, detalhada, poética. A melodia é única. Um samba como não se faz hoje em dia, principalmente depois do “Efeito Ita”.

certa jovem linda, divinal
seduziu com seus encantos de menina
o Ouvidor Real
levada a trocar de roupagem
numa nova linhagem
ela foi debutar
na corte, fascinou toda a nobreza
com seu porte de princesa
com seu jeito singular

Ana Jacinta, rainha das flores
dos grandes amores
dos salões reais
com seus encantos e sua influência
supera as intrigas
os preconceitos sociais

era tão linda, tão meiga, tão bela
ninguém mais formosa que ela
no reino daquele Ouvidor
ela com seu feitiço inteligente
cria um reinado diferente
na corte de Araxá
e nos devaneios das festas de Jatobá
mas antes, com seu trejeito feiticeiro
traz o Triângulo Mineiro
de volta a Minas Gerais

até o fim da vida
Dona Beja ouviu falar
viu seu nome figurar
na história de Araxá

LUCAS 68
Sublime pergaminho
Carlinhos Madrugada – Zeca Melodia – Nilton Russo
[ ouça ♫ ]

Um samba emocionante, de letra poética, claramente dividido em duas partes — uma primeira mais triste, mostrando o sofrimento do escravo, desde o navio negreiro até o cativeiro; na segunda parte, com a abolição da escravidão, letra e melodia se casam de tal forma que a canção se torna uma verdadeira celebração da liberdade, representada e esculpida de forma espetacular no refrão final. É impressionante como estas duas partes são ligadas, como o samba vai ganhando força aos poucos, evoluindo até chegar ao clímax no final. “Sublime pergaminho” é a grande contribuição da escola para o carnaval carioca e o grande samba de 1968.

quando o navio negreiro
transportava os negros africanos
para o rincão brasileiro
iludidos com quinquilharias
os negros não sabiam
ser apenas sedução
para serem armazenados
e vendidos como escravos
na mais cruel traição
formavam irmandades
em grande união
daí nasceram os festejos
que alimentavam os desejos da libertação
era grande o suplício
pagavam com sacrifício
a insubordinação

e de repente uma lei surgiu
que os filhos dos escravos
não seriam mais escravos no Brasil

mais tarde raiou a liberdade
daqueles que completassem
sessenta anos de idade
o sublime pergaminho
libertação geral
a Princesa chorou ao receber
a rosa de ouro papal
uma chuva de flores cobriu o salão
e um negro jornalista
de joelhos beijou a sua mão

uma voz na varanda do Paço ecoou
meu Deus, meu Deus
está extinta a escravidão

MOCIDADE 68
Viagem pitoresca através do Brasil
Da Roça – Djalma
[ ouça ♫ ]

O samba da Mocidade tem variações melódicas interessantes e conta bem o enredo. No entanto, a letra é demasiadamente grande e os refrões não colam nos ouvidos. Além disso, a obra possui inúmeros erros técnicos, principalmente de métrica, com versos longos demais, atrapalhando o canto dos componentes.

ao rever a história
que Maurício Rugendas deixou
eu destaquei na memória
essa página de glória
muito importante e tão viril
viagens pitorescas
através do Brasil
as nossas praias sem iguais
interrompidas por rochedos colossais
e as matas verdejantes
onde existem vários animais
Rugendas observou essa beleza
ao contemplar a natureza
caminhando por esse Brasil afora
entusiasmado Rugendas catalogou
as cenas tristes e alegres
nos idos tempos do Brasil imperial

glórias…
a esta bela viagem sua
pois existem até hoje em Munique
lindos quadros retratados em pinturas

ainda dentro do seu roteiro
luta e lamentos de raça
Rugendas anotou
com orgulho o nosso povo brasileiro

e a mulata
com seu feitiço e beleza
era disputada a peso de ouro
pela mais alta nobreza

eu revi na minha música a memória
estas páginas de glória
que Rugendas deixou
no lindo berço de sua história

IMPÉRIO SERRANO 68
Pernambuco “O Leão do Norte”
Silas de Oliveira
[ ouça ♫ ]

“Pernambuco, ‘O Leão do Norte’” é um samba atípico até para os anos 60. Lembra um pouco os primeiros sambas que Silas de Oliveira compôs para o Império Serrano. Tem letra curta, palavreado rebuscado e o tradicional “lá lá ia” ditando o canto dos componentes. O destaque da composição, no entanto, é a melodia, inusitada e muito forte. Este é o pior dos sambas de Silas no seu período de ouro (de 1964 a 1969, quando venceu todas as disputas do Império), mas, ainda assim, é excelente.

esta admirável página
que o passado deixou
enaltece a nossa raça
disse um famoso escritor
que Maurício de Nassau
na verdade foi um invasor
muito genial

glória a Vidal de Negreiros
e aos seus companheiros
que na luta contra os holandeses
em defesa ao Leão do Norte
arriscaram suas vidas
preferiram a morte

na trégua dos guararapes
teatro triste da insurreição
houve estiagem, coragem, abnegação
Pernambuco hoje
é orgulho da federação
evocando os Palmares
terra de Bamboriki
ainda ouço pelos ares
o retumbante grito do Zumbi

lá, rá, rá, rá, rá, rá
lá, rá, rá, rá, rá

Passista do GRES Estação Primeira de Mangueira faz malabarismo com pandeiro. Carnaval de 1968
Passista do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira faz malabarismo com pandeiro. Rio de Janeiro, Carnaval de 1968. (foto: Arquivo Nacional)

Lado B

PORTELA 68
Tronco do ipê
Cabana
[ ouça ♫ ]

Um dos piores sambas da história da escola. Cabana, autor de inúmeros sambas da Beija-Flor no período pré-Joãozinho Trinta, assina este “boi com abóbora”. Talvez influenciados por Silas de Oliveira, que tinha cultura e um vocabulário rico, utilizando isto em suas composições, os compositores, muitas vezes, colocavam palavras cujo sentido desconheciam para tornar suas obras mais impressionantes. É o caso deste samba, cuja letra não diz coisa com coisa. Basta examinar este trecho: “escrita por José de Alencar/ grande vulto de valor excepcional/ orgulho da literatura nacional/ tronco do ipê/ é o ponto culminante desta estória/ onde o Pai Benedito fazia feitiçaria (…)“. O que é orgulho da literatura nacional? José de Alencar ou o tronco do ipê? O tronco do ipê é o ponto culminante de que estória — do José de Alencar ou da feitiçaria do Pai Benedito? A letra cheia de ambigüidades, combinada com uma melodia mal resolvida tornam este samba intragável…

apresentamos neste carnaval
esta estória exuberante
cheia de trechos sensacionais
de episódios eletrizantes
escrita por José de Alencar
grande vulto de valor excepcional
o orgulho da literatura nacional
Tronco do Ipê
é o ponto culminante desta estória
onde o Pai Benedito fazia feitiçaria
reunia os escravos no local
e lá fazia um batuque infernal

lá lá lá lá iá…

muito importante e também de emoção
foi quando Alice caiu no boqueirão
Mário num esforço sobrenatural
consumou a sua salvação
outro fato bem marcante
foi a carta, testamento do barão
e a passagem mais bela
foi o casamento de Mário e Alice na capela
ô ô ô…

oh! que maravilha!
na casa grande
todos dançando a quadrilha

MANGUEIRA 68
Samba, festa de um povo
Darcy – Batista – Luiz – Hélio Turco – Dico
[ ouça ♫ ]

Samba com a cara da escola, provavelmente um dos grandes trunfos para a conquista do bicampeonato. Hélio Turco criou uma fórmula que qualquer outro compositor da escola vai ter de seguir para ganhar samba na verde e rosa. Por causa disso, “Samba, festa de um povo”, se fosse reeditado, passaria tranquilamente por um samba atual, apesar de ser poeticamente mais rico do que qualquer samba feito hoje em dia.

num cenário deslumbrante
do folclore brasileiro
a Mangueira apresenta
a história do samba verdadeiro
música… de origem bem distante
de uma era tão marcante
que enriqueceu nosso celeiro
as diversas regiões
entoavam as canções
era um festival de alegria

foi assim, com sedução e fantasia
que despontou o nosso samba
com grande euforia

foi na Praça Onze
das famosas batucadas
que o samba teve a sua glória
no limiar da sua história
quantas saudades
dos cordões da galeria
onde o samba imperava
matizando alegria
oh! melodia
oh! melodia triunfal
sublime festa de um povo
orgulho do nosso carnaval

louvor aos artistas geniais
que levaram para o estrangeiro
glorificando
o nosso samba verdadeiro

VILA ISABEL 68
Quatro séculos de modas e costumes
Martinho
[ ouça ♫ ] 

Enquanto Silas de Oliveira resgatava o passado para compor “Pernambuco, ‘O Leão do Norte’”, Martinho olhava para o futuro, prosseguindo na sua missão de revolucionar o gênero samba de enredo. “Quatro séculos de modas e costumes” é aquele tipo de samba simples, irresistível, contagiante, de refrões que colam no ouvido… Sem ser bobo, oba-oba ou apelativo. Interessante como as escolas que mais revolucionaram o carnaval, como o Império Serrano e a Vila Isabel, hoje tem fama de tradicionais… Enfim, mais um belo samba da Vila.

a Vila desce colorida
para mostrar no carnaval
quatro séculos de modas e costumes
o moderno e o tradicional

negros, brancos, índios
eis a miscigenação
ditando moda
fixando os costumes
os rituais e a tradição

e surgem tipos brasileiros
saveiros e bateador
o carioca e o gaúcho
jangadeiro e cantador

lá vem o negro
vejam as mucamas
também vem com o branco
elegantes damas

desfilam modas no Rio
costumes do norte
e a dança do sul
capoeiras, desafios
frevos e maracatus

laiaraiá, ô
laiaraiá
festa da menina-moça
na tribo dos Carajás
candomblés vem da Bahia
onde baixam os orixás

RITMO DA ESCOLA
[ ouça ♫ ]


Festival de samba – Sambas enrêdo das escolas de samba 1968

1968, Discnews (DN-68/2)
Ouça no spotify, youtube ou itunes | discogs
DISCO É CULTURA

Gigi em desfile da Mangueira em 1968
Gigi em desfile da Mangueira em 1968 (foto: Reprodução/Internet)

Festas Tradicionais: do Natal ao Carnaval

Por Maria Emília F. Saldanha
15 – fevereiro – 1968

Festas, espetáculos, folguedos, são manifestações culturais existentes em todos lugares, em todos os tempos. No Brasil dentre os inúmeros eventos distribuídos por todas as regiões, três conseguem projeção nacional centralizando o interesse em seus períodos de comemoração: o carnaval, o Natal, as festas juninas. O carnaval pela sua dinâmica de festa da multidão conquistou uma projeção turística que lhe confere importância única em suas sedes típicas Rio e Recife. Mas o carnaval não surgiu com seu aspecto atual, como é mundialmente conhecido.

Chegou-nos através do Entrudo que entre nós teve longo reinado e incalculável número de fiéis súditos. Todos participavam das brincadeiras não havendo discriminação social conforme se verifica até hoje. Costumava-se encharcar as pessoas até os ossos com água das mais diferentes procedências. Sujas ou limpas, perfumadas ou não. Enfim, nadava-se em água. Atirar pó-de-arroz ou mesmo de carvão também era comum; Ninguém escapava das brincadeiras, salvo se fugisse da cidade durante esses três dias. Tornou-se censurável costume e a polícia logo iniciou a sua repressão estimulando outros tipos de brincadeiras, primórdios do carnaval.

Com o correr do tempo, foi cedendo lugar às novas influências. Surgiram os primeiros carros alegóricos e os bailes a fantasia. Era o carnaval que nascia em meados do século XIX. E os fabulosos Zé-Pereiras também vieram zabumbando loucamente. Quadrilhas de vermelhos e saltitantes diabos se incumbiam de assustar, aos gritos, as crianças e de furtar guloseimas das quitandeiras. Não raro descobria-se tratar-se algum deles de afamados capoeiras.

O carnaval trouxe com ele importantes características que se vêm firmando cada vez mais: o público assistente, desfiles organizados, danças e fantasias luxuosas no interior dos salões dos clubes. Vem perdendo realmente o caráter de festa coletiva. Trouxe-nos no entanto grande vantagem: tornou-se marca registrada mundialmente conhecida.

Do jornal O Globo (2-3-68), texto sobre o bicampeonato da Estação Primeira de Mangueira, e também, como foi a apuração do carnaval de 68 em detalhes. Vale a leitura!

Todo o Morro Sambou Pela Vitória de Mangueira

Derrotando pela diferença de seis pontos a Império Serrano, que despontava como franco favorita, Mangueira tornou-se bicampeã do carnaval carioca, vitória que todo o morro comemorou sambando até de madrugada . Muito emocionado, Grande Otelo, que desfilou junto com Anik Malvik, abraçava todo mundo, chorando e rindo de alegria. A festa vai continuar hoje, às 22 horas, com o desfile de várias alas na Lagoa Rodrigo de Freitas, em frente à residência do Governador, a quem será entregue uma flâmula da escola, e amanhã, às 16 horas, com procissão em honra da Senhora da Aparecida e de São Sebastião, os santos protetores da Estação Primeira de Mangueira.

A Grande Festa

Ao som do hino da Escola os sambistas de Mangueira reuniram-se na quadra da Rua Visconde de Niterói, festejando o segundo bicampeonato conquistado. O presidente da Escola, Juvenal Lopes, que foi carregado em triunfo pelos torcedores, dizia a todos que já está preparando o tricampeonato, e anunciava o enredo para o próximo ano: “Nêga Fulô” em homenagem às escravas negras, tema que os compositores de Mangueira, sentados na mesa do bar “Só para quem pode” experimentavam em suas caixas de fósforos.

Entre as velhas pastoras que dançavam na quadra descoberta, ao som da bateria comandada pelo mestre Valdomiro, a passista Nininha — 35 de seus 40 anos dedicados à Mangueira — era uma das mais alegres, vestindo a rica baiana que usou durante o desfile de domingo passado.

Os diretores do Salgueiro e de Lucas e o Vice-Presidente do “Bafo da Onça”, Sebastião Maria, abraçaram Juvenal Lopes e elogiaram a vitória da Escola, enquanto Grande Otelo dançava gritando que Mangueira seria tricampeã.

Natal Levou Tensão ao Maracanãzinho

Para chegar ao bicampeonato, Mangueira somou 125 pontos, contra 119 da Império Serrano, enquanto Salgueiro ficava em terceiro, com 112, e Portela, reduzida a 103 pontos, fechava a lista das “Quatro Grandes”. A apuração, que começou às 11 horas, foi realizada no Maracanãzinho, em clima de grande tensão, provocada pelo Natal, da Portela, e agravada com o incidente entre um membro do Salgueiro e um soldado da Polícia Militar. A “Em Cima da Hora” venceu as escolas do 2° Grupo, e a “Paraíso do Tuiuti”, no 3°, enquanto o Clube dos Embaixadores tornou-se campeão das Grandes Sociedades, o Decidido de Quintino, dos Ranchos, e o Vassourinhas venceu nos Frevos. Canários das Laranjeiras, Unidos do Cabral e Namorar eu Sei foram os vencedores entre os blocos do 1°, 2° e 3° grupos, respectivamente.

Apuração

Com às arquibancadas do Maracanãzinho tomadas por um público estimado em 800 pessoas a apuração foi iniciada á hora marcada (11 horas), sob a presidência do diretor de Certames da Secretaria de Turismo Sr. João Tedim Barreto. A medida em que os votos iam sendo anunciados, apontando o caminho da vitória para a Estação Primeira, os torcedores começaram a sambar, gritar e acenar bandeiras.

À tranqüilidade foi quebrada com a chegada do Natal, da Portela, que anunciou a retirada de sua Escola dos próximos desfiles, alegando que os resultados já estavam marcados e exibindo uma lista que discriminava quesito por quesito, dando à vitória à Império, seguida de Salgueiro, Mangueira e Portela. Natal bradava que os juízes tinham quebrado a sigilo e dava a sua lista como oficial, mas todas as suas previsões foram desmentidas: apenas acertou a 4° colocação para Portela, que foi a última das “Grandes”.

Diante do rebuliço provocado pela agitação de Natal, o presidente da Mangueira, Juvenal Lopes, o presidente da Associação das Escolas de Samba do Brasil, José Calazans, e o jornalista Haroldo Bonifácio levaram-no a uma sala nos bastidores do Maracanãzinho, para examinar a sua lista.

Confusão

Logo depois de começar a reunião, apareceu um elemento do Salgueiro, querendo entrar na sala à força: diante da resistência de um soldado da Polícia Militar, derrubou-o com uma rasteira, provocando um tumulto que se estendeu até o palco, paralisando os trabalhos da apuração.

Diante da confusão, o diretor de Certames anunciou a suspensão da apuração, dizendo que marcaria nova data e local para o seu prosseguimento. A medida provocou imediata reação de todos os sambistas, que pressionaram o Sr. João Tedim até conseguir a sua revogação. Antes de ser reiniciada a apuração, outro elemento do Salgueiro discutiu com o presidente da Mangueira, acusando-o de aceitar a proposta de Natal para anular o desfile, agora que acreditava, na derrota da sua escola, quando em 1964 tinha assumido o mesmo compromisso com Salgueiro e voltado atrás assim que viu sua escola bem colocada.

À tranqüilidade foi quebrada com a chegada do Natal, da Portela, que anunciou a retirada de sua Escola dos próximos desfiles, alegando que os resultados já estavam marcados

Classificação

Encerrada a apuração, as escolas restantes obtiveram seguinte classificação: 5° lugar — Unidos de Lacas, com 99 pontos; 6° Mocidade Independente de Padre Miguel (82); 7° Unidos de São Carlos (79); 8° Unidos de Vila Isabel (76); 9° Independentes do Leblon (60); e 10° Império da Tijuca, com apenas 52 pontos. As duas últimas colocadas descerão para o 2° Grupo, que desfila na Avenida Rio Branco.

Desilusão

Decepcionados com o resultado, já que toda a cidade tinha antecipado a sua vitória, os membros do Império deixaram o Maracanãzinho rumo a Madureira, onde na Serrinha, estava marcada uma festa de comemoração. Antônio Fuleiro, Diretor de Harmonia e um dos fundadores do Império, admitiu ser justa a vitória da Mangueira, mas lamentou que o mestre-sala Delegado tivesse obtido a mesma nota do seu Noel Canelinha:: “Delegado não estava bem e só sambou ante da comissão julgadora, enquanto Canelinha deu uma exibição para todo o público”, disse.

Alegria

Já Osmar Valença, Presidente do Salgueiro, achou muito boa a colocação da sua Escola, declarando-se alegre com o 3° lugar, já que um grande número de figurantes faltou ao desfile, por não ter ficado prontas a tempo as fantasias de todos. Reclamou, apenas, das notas dadas pelo jurado Ítalo Oliveira, que apreciou os quesitos evolução e conjunto, mas não disse se impugnará o seu nome, no próximo ano.

Sem Saber

David Correa, Diretor da Unidos de Vila Isabel, Escola que desceu do 5° lugar, ano passado, para o 8°, agora, não sabia explicar o fracasso. “Acho que o Presidente Miro acreditou muito nas promessas feitas por pessoas que não mereciam confiança”. Um dos jurados, do quesito desfile, tinha prometido 5 (nota máxima) a Vila Isabel e acabou dando apenas 4.

Também Vítor Passos, Presidente, do quesito desfile, que não levou em consideração a forte chuva caída durante a passagem de sua Escola. Protestou, ainda, contra a nota 7, dada pelo jurado Inácio Guimarães à letra do samba-enrêdo, guando a maioria dos compositores considera aquela a melhor de todas.

As Várias Notas de Todos os Sambas

Ao ver o Presidente do Salgueiro, Osmar Valença, Natal botou a mão no bolso e desafiou: “Osmar, um milhão como sua Escola está na frente da minha, por por mais de cinco pontos”. Osmar riu é não aceitou a aposta, que teria perdido: Salgueiro ficou 9 pontos frente à de Portela.

Antes da abertura dos envelopes, Osmar Valença dizia a todos: “Se Império ganhou, ganhou bem”. Depois, um pouco decepcionado, mudava o tom: “Não quero nem posso diminuir a vitória de Mangueira, mas acontece que se gasta muito, trabalha-se demais, para, depois, alguém que é muito mais sambeiro do que sambista, com um voto quase capcioso, deitar por terra todos os nossos trabalhos e sonhos. Mas não faz mal, ano vem estaremos aí, competindo ainda melhor

A vitória do Paraíso do Tuiuti foi uma das mais aplaudidas no Maracanãzinho. Devido a uma séria crise financeira, a Escola deixou de desfilar o ano passado, sendo rebaixada. Agora, com a vitória, voltará à sua antiga categoria.

Gegê, que, apesar de sócio proprietário do Império Serrano é também um fã da Portela, desafiava todo mundo para apostas até um milhão do cruzeiros antigos. Coquinho, filho do Presidente da Mangueira, lamentou não ter dinheiro para cobrir a aposta: “Seria o dinheiro mais fácil que eu iria ganhar em minha vida”, explicava.

Quase que Mangueira perde o Carnaval, pela precipitação do seu Presidente, que foi na conversa de Natal e já pensava em pedir a anulação do desfile. Para sorte da Mangueira, o próprio Natal achou melhor esperar a abertura dos envelopes, cujos resultados não coincidiram com sua lista de previsões. A vitória garantiu a Juvenal Lopes, que andava meio sem força na política de Mangueira, mais dois anos tranqüilos na presidência da Escola.

Em Cima da Hora Sobe de Grupo

Com os resultados apresentados, os “Independentes do Leblon” e “Império da Tijuca” passaram para o segundo grupo, enquanto ascenderam ao primeiro as escolas “Em Cima da Hora” e “Imperatriz Leopoldinense”.

O mesmo aconteceu as demais agremiações. Os dois últimos colocados passam para a categoria imediatamente anterior, se houver, ao passo que os dois primeiros classificados ascendem à classe superior. Os que descem passam a desfilar na Avenida Rio Branco, enquanto os que sobem vão para a Presidente Vargas.


Ficha técnica

As gravações foram realizadas nas quadras de ensaio de cada uma das Escolas de Samba, com aparelhagem especial para gravações ao vivo. A ordem de colocação dos sambas para montagem das faixas deste disco, foi determinado por sorteio realizado nos estúdios “Atonal”, na presença dos interessados. PRODUTORES: Expedito Alves, Norival Reis e Nilton Valle / STUDIO ATONAL: aparelhagem para gravações externas / TÉCNICO DE SOM: N. Reis / CORTE: Oliveira / CAPA: Joselito

Considerações finais

Há 50 anos, era lançado o primeiro vinil de sambas-enredo, um marco na trajetória das escolas cariocas. Por iniciativa do Museu da Imagem e do Som, as agremiações enfim gravaram as canções que levariam para a Avenida. De 1968 para cá, o disco virou Lp, CD, e ganhou as plataformas digitais. Foi no fim dos anos 60 que o samba-enredo começou a ter relevância no mercado musical. “O mundo encantado de Monteiro Lobato” (Mangueira, 1967) fez sucesso na voz de Eliana Pittman. As gravadoras viram, assim, a chance de reunir as escolas num disco. Em 1968, a DiscNews lançou o “Festival de samba” (este post), com sete escolas. A partir deste Lp, todo ano, os samba-enredo são lançados. O MIS foi além e gravou um álbum com todas as dez agremiações do primeiro grupo. Para se ter uma ideia da qualidade deste LP do MIS, Cartola tocava violão na faixa da Mangueira, e Martinho cantava uma de suas obras-primas, “Quatro séculos de modas e costumes”. Ainda havia Laíla cantando o lindo “Dona Beja”, do Salgueiro; e Unidos de Lucas com “Sublime pergaminho”.


Intérprete(s):

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Sambas enrêdo 1° grupo 1971

Trago neste post os sambas enrêdo do Carnaval de 71 do grupo 1 (atual Grupo especial). Esse álbum em particular teve três edições:…

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