Clementina de Jesus (Album, LP) capa, cover

Clementina de Jesus, Marinheiro só

Em 1973, meses depois de ter tido um trombose, com força e perseverança, Clementina, gravou mais um LP individual, Marinheiro só, pela Odeon, interpretando várias canções antológicas.

“Marinheiro só” (Caetano Veloso) – trecho

A discografia de Clementina de Jesus esta representada pelos seguintes LPs Odeon: “Rosa de Ouro n° 1”; “Clementina de Jesus” (ambos também editados na Europa); “Rosa de Ouro n° 2”; “Mudando de conversa”; “Gente da antiga”; “Fala Mangueira!” e um compacto-simples. Ainda nesta casa, interveio recentemente numa faixa (Escravos de Jó) do Lp de Milton Nascimento. Fora daqui, um LP para o Museu da Imagem e do Som (“Clementina, cadê você?”) e a interpretação numa faixa do Lp “A enluarada Elizeth”.

Este seu novo trabalho é feito após cinco meses de ter sido acometida de uma trombose, que a princípio, deixou todos apreensivos quanto a seu futuro artístico. Mas Clementina é, como ela mesma diz, “madeira de dar em doido”. Quase recuperada, entrou nos estúdios durante quatro sessões, sendo que nas três primeiras praticamente havia concluído esse Lp. Destaca-se uma longa faixa, onde se consagra em 5 cantos religiosos, acompanhada por uma percussão incrivelmente comandada por Nanã – um dos seus admiradores mais ferrenhos.

Clementina é uma reserva dinâmica de um tipo de música que praticamente se extinguiu no Brasil, e por um fatalismo especial, foi a ela reservada a honra de preservar e legar para a posteridade esse trabalho. Uma vez disse Villa-Lobos: “- Eu sou o folclore”. Clementina poderia disser o mesmo. E mais ainda, uma pessoa incrivelmente musical que não ficou presa a um passado cheio de recordações saudosistas. Ela vibra com Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Sergio Ricardo, Maurício Tapajós, Caetano Veloso (um especial carinho para com seu “filhinho baiano”). Por isso tudo, este é um trabalho também dedicado a Caetano Veloso e por tudo que representa para a música popular brasileira.

“Dedico este disco a meu Albino ‘Pé Grande’ e ao meu amigo Caetano Veloso”

Clementina de Jesus

É um disco e sons brasileiros que provavelmente alguns críticos mais apressados vão logo rotular como um trabalho de pesquisa. Não. É um trabalho de constatação da vida maravilhosa desta mulher negra que passou a infância debruçada nas cantigas de sua mãe, nas modas tiradas por seu pai violeiro, nos cantos de senzala que povoaram seus antepassados. Essas cantigas estão temperadas pelo tempo, são jongos, chulas, modas, corimas, lundus, incelenças, batucadas – todo um acevo precioso que, ao longo de sua breve carreira artística, oferece aqueles que acreditam na riqueza de nossa música, nessa engrenagem rítmica misteriosa, nessa coisa meio sensual que ela expõem com verdadeira genialidade em “Taratá” – um de seus momentos mais felizes, verdadeira aula que irá comover aqueles que seguem os passos dessa mulher verdadeiramente extraordinária e única. O amor dos jovens por Quelê tem um significado muito especial: ela é a mãe-preta que nem todos tiveram, misto de lenda e realidade, raiz de mistério que nos cabe o privilégio desvendar.

HERMÍNIO BELLO DE CARVALHO
contracapa


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Marinheiro só (LP Odeon, SMOFB 3787, 1973)

Clementina de Jesus (Album, LP) capa, cover
capa: Joel Cocchiararo | foto: Walter Firmo

Lado A – “Marinheiro só” (Caetano Veloso); “Na linha do mar” (Paulinho da Viola); “Madrugada” (Antonio Motta-B. Miranda); “Sai de baixo” (Eduardo Marques); “Taratá” (arranjo e adaptação Clementina de Jesus); “Essa nega pede mais” (Paulinho da Viola).

Lado B – “Moro na roça” (adaptação de tema popular de Xangô da Mangueira-Zagaia); Cinco cantos religiosos: “Oração da Mãe Menininha” (Dorival Caymmi) “Fui pedir as almas santas” (arranjo e adaptação Clementina de Jesus) “Atraca, atraca” (arranjo e adaptação Clementina de Jesus) “Incelença” (arranjo e adaptação Clementina de Jesus) “Abaluaie” (Waldemar Henrique); “Marinheiro só” (Caetano Veloso) “Me dá o meu boné” (Padeirinho).


Milton Miranda (diretor de produção), Maestro Gaya (diretor musical), Hermínio Bello de Carvalho (assistente de produção), Maestro Nelsinho (orquestrador e regente), J.Z.Merky (diretor técnico), Toninho e Dacy (técnico de gravação), Reny L. Lippi (técnico de laboratório), Nivaldo Duarte (técnico de remixagem), Joel Cocchiararo (lay-out), Walter Firmo (foto).

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Marcelo Oliveira
Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense e botafoguense. Meu objetivo com o blog é preservar a memória do SAMBA!

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