Clementina de Jesus (Album, LP) capa, cover

Clementina e convidados

Clementina e convidados contou com a participação de vários cantores consagrados no mundo do samba, bem como Clementina expressou-se como compositora.

“Tantas você fez” (Candeia) – trecho

Tantos anos. Tantos
E esse tempo a pele exposta ao sol, a água, ao vento.
Não podia ser diferente.
Agora está ali aquela mão.
Velha.
Como uma folha ressecada.
Sem brilho, sem qualquer sinal de umidade.
Tão frágil e quebradiça que se teme tocar.
Que até o movimento mais cauteloso preocupa e aflige, ela pode se partir em 78 pedaços e virar pó.
É essa mão que desce trêmula até a bolsa e de lá retira um pedaço de papel higiênico.
– Essa vista hoje tá uma porcaria – resmunga ela enxugando aquela água que lhe sai do olho.
– Isso que você está falando não está escrito aqui, não – diz ela.
– Está. Clementina. É que você começa a ler um verso e na metade pula pro outro. Olha!
– Não olha nada. Não quero olhar.
– Está bem, vamos deixar isso pra amanhã.
(Vamos fazer samba do Paulo da Portela?)
– Ah, Clementina, não me diga…
– Digo sim senhor. Não sei que samba é esse não!
– Ora Clementina, o “Cocorocó”, eu lhe dei a fita, você levou pra casa…
– É, vó, você levou. Tava na mesinha – diz Bira, o neto acompanhante.
– Não se mete menino. Quem o chamou aqui? Vagabundo! Vá embora, vá. Não quero ver mais você não! Nem que me leve pra casa, ouviu? Não preciso.
Ela nervosa, brava. Mexe com a boca como se mastigasse alguma coisa.
– Você tem que aprender as músicas, Clementina. É o mínimo que você tem que fazer. Bom, vamos tentar gravar o samba do Candeia?
– Vamos.

Ela mexe na estante á procura da letra. Os papéis estão todos amassados, porque os movimentos são inseguros e nervosos.
– Gravar, gravar! Só se fala em gravar, em dinheiro ninguém fala!
A fita começa a rodar.
Agora ela canta.
A mão sobe e desce firme, no balanço da música.
Aos poucos, um cheiro de mato começa a sair de todas as coisas – cadeiras, instrumentos – o sol penetra pelos cantos do estúdio, e também a lua e a noite, e tudo parece se mudar em terreiros, quintais e quadras.
Como nas assombrações.
Agora vemos só árvores verdes e uma terra molhada e fértil.
É uma história muito bonita, como não se ouvia mais, é recontada. E revivida.
Ela não é mais ela, Clementina de 78 anos.
É um feitiço.

Fernando Faro, maio de 1979
encarte

Além de um Lp excelente, esse disco teve a sua capa desenvolvida pelo Mestre Elifas Andreato. Sobre essa capa em particular, Elifas comenta: “- A capa do “Clementina e Convidados”, de Clementina de Jesus, é uma das minha preferidas. A
pegada no barro aponta para a ideia de raiz, profundidade. Remete à João da Baiana, Donga, Bide e Marçal, os primeiros sambistas. No verso, você vê o barro ressecado sinalizando a passagem do tempo. “


spotify | youtube | apple music

/info

Clementina e convidados (LP EMI, 31C 064 422846D, 1979)

Clementina de Jesus (Album, LP) capa, cover
capa: Elifas Andreato e Iolanda Husak

Lado A – “Tantas você fez” (Candeia) – voz Clementina e Cristina Buarque; “Embala eu” (Albaléria) – voz Clementina e Clara Nunes; “Cocorocó” (Paulo da Portela) – voz Clementina e Roberto Ribeiro; “Olhos de azeviche” (Jaguarão); “Boca de sapo” (João Bosco-Aldir Blanc) – voz Clementina e João Bosco; “Laçador” (Catoni-Clementina de Jesus).

Lado B – “Assim não, Zambi” (Martinho da Vila) – voz Clementina e Martinho da Vila; “Na hora da sede” (Luís Américo-Braguinha); “Sonho meu” (Yvone Lara-Délcio Carvalho) – voz Clementina e Yvone Lara; 4. “Torresmo a milanesa” (Adoniran Barbosa-Carlinhos Vergueiro) – voz Clementina, Adoniram e Carlinhos Vergueiro; “Caxinguelê das crianças” (José Ventura); “Papel reclame” (Nelson Sargento).


Mariozinho Rocha (direção de produção), Fernando Faro (produção), Maestro Nelsinho (orquestrações e regência), Mairton Bahia, Dacy e Roberto Castro (técnicos de gravação), Nivaldo Duarte (mixagem), Osmar Furtado (corte), Elifas Andreato e Iolanda Husak (capa), Wilson Montenegro (fotos do encarte).

Dino e César Faria (violão), Carlinhos e Osmar (cavaco), Wilson das Neves (bateria), Jorginho do Pandeiro, Luna, Eliseu e Geraldo Bongô (ritmo), Chiquinho (acordeon), Neco (viola), Dinorá, Euridice, Genilda, Cristina, Copacabana e Tuffic.

/relacionados

Marcelo Oliveira
Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense e botafoguense. Meu objetivo com o blog é preservar a memória do SAMBA!

/novidades

Receba todas as novas publicações do blog

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *