Nelson Cavaquinho (Album, LP) capa, cover

Nelson Cavaquinho, Depoimento do poeta

Em 1970 Nelson Cavaquinho lançou seu primeiro LP, Depoimento do poeta, pela gravadora Castelinho, disco que gosto muito e trago neste post.

“Luz negra” (Nelson Cavaquinho-Amâncio Cardoso)

Do velho Donga até os Novos Baianos (que estão aparecendo agora) nenhuma figura da música popular brasileira me comove tanto quanto Nélson Cavaquinho. A sua poesia, a sua música, a sua voz, o seu caráter, tudo nele é de uma pureza que eu diria selvagem. NÃO me refiro a pureza exigida pelos idealistas (e puristas, no sentido pejorativo do termo) dos nossos compositores populares. Longe disso. A pureza em Nélson Cavaquinho é a ausência total daquelas neuroses próprias dos nossos artistas, a neurose da forma, a neurose do sucesso, a neurose da sobrevivência profissional.

Nélson Cavaquinho é um puro, embora a gente saiba que anda bastante misturado com cachaça. A sua voz, por exemplo, esta impregnada de álcool e fumo, mas sempre achei que deveria gravar um disco com ele próprio cantando as suas músicas. Gosto muito de vê-lo cantando com aquele sinceridade e aquela rouquidão que ajudam bastante a compor o tipo: o último e o mais perfeito remanescente da geração dos compositores de botequim que tiveram sua fase áurea nas décadas de 1930 e 40.

Todo mundo sabe que Nélson Cavaquinho é um poeta, um grande poeta popular. Pouca gente porém, acentua as suas virtudes de excelente melodista, um grande criador de músicas. Neste disco que reúne 12 dos seus maiores sambas, há melodias belíssimas. Chamo atenção particularmente para Luz Negra, onde não sei o que é mais bem feito, a letra ou a música.

Enfim, não sou eu quem vai falar quem é exatamente Nélson Cavaquinho, essa figura humana, este artista maravilhoso. As suas músicas dizem muito mais do que qualquer coisa que poderia escrever. Mas não posso concluir estas linhas sem citar outro grande artista presente neste disco Altamiro Carrilho. Vocês observarão que Altamiro não colocou nos sambas de Nélson Cavaquinho o seu imenso talento e sua grande técnica de flautista. Ele foi além. Nos seus solos magníficos, nos seus simples acompanhamentos, nos seus surpreendentes improvisos, Altamiro Carrilho contribuiu também com a sua alma, com muito amor.

Não sei se este disco fará sucesso a ponto de entrar nos peça bis […]. Mas torço porque sei, e afirmo com toda convicção, que este é um disco histórico dentro da música popular brasileira. E me congratulo com quem teve a idéia de produzi-lo.

Sergio Cabral
contracapa

Aqui está o resultado da primeira oportunidade que deram a NELSON CAVAQUINHO para gravar um LP só seu, naturalmente, pois, antes, houve em 66 aquela tímida participação em Luz Negra com Elizeth Cardoso. Neste disco (“idéia audaciosa de Paulo Cesar Costa”, como observou Sérgio Cabral na contracapa do relançamento de 1974), NELSON CAVAQUINHO é o compositor (com parceiros) e o intérprete. E pela primeira vez, após mais de 40 anos produzindo.

O LP original era da marca “Castelinho” e foi registrado em 1970. Depois a Continental adquiriu a matriz, relançando-o em 1974 (CCLP-003, Série “Ídolos da MPB”), num tempo em que já se falava muito de Nélson neste País.

Algumas de suas melhores composições estão nesse documento sonoro hoje raro, e especialmente importante por mostrar um quase sexagenário em razoável performance considerando-se sua idade. Gente importantíssima, enfim, participa do registro. Elizeth Cardoso, por exemplo, que chama Nélson do jeito como sempre foi conhecido na Mangueira: NELSON DO CAVAQUINHO. Eneida Costa de Morais, que faleceria menos de um ano após este disco. A grande cronista na MPB, Eneida, que em 1973 seria homenageada pelo Salgueiro no enredo desse ano. Sargentelli, com seu jeito inconfundível e aquela voz de tribuno. Sérgio Cabral, na minha lista particular um dos dez maiores conhecedores de música popular brasileira. E Altamiro Carrilho, com seu som de flauta inconfundível.

O LP serviu, entre outras coisas importantes, para revelar uma coisa que pouca gente sabia. O samba Palhaço, que no selo da gravação original (78 rpm da “Odeon”. n.º l3.l 34, feito por Dalva de Oliveira em 7 de março de 1951 e lançado no suplemento de junho) constava como sendo de uma dupla – Oswaldo Martins e “Nelson Washington”, na verdade era de Oswaldo Martins, Nélson da Silva (o NELSON CAVAQUINHO) e Washington Fernandes. Quem poderia supor que um dos autores desse retumbante sucesso de Dalva em 1951 fosse o nosso humilde e sempre “apagado” Nélson? Tinha dessas coisas em selo de discos na ocasião. E por isso o grande público no Brasil ignorava quem fosse NELSON CAVAQUINHO até que Elizeth Cardoso o revelasse em definitivo.

Parceiros de Nelson, como Guilherme de Brito e Jair do Cavaquinho, estão acima de qualquer suspeita. Outros, porém, e só nosso focalizado tem o direito de denunciar, constituem “parceiros”. Em depoimento publicado em fascículo recente da “Abril Cultural”, NELSON CAVAQUINHO desabafa sem rebuços: “- Não estou reclamando. Era coisa da época, e alguns desses meus ‘parceiros’ me ajudaram muito nos momentos difíceis e eu dei parceria como forma de retribuir o que eles haviam feito. César Brasil, por exemplo, era gerente de um hotel onde, sempre que estava sem dinheiro, eu dormia sem pagar nada. Naquela época também não existia direito autoral e a música rendia o que o parceiro pagava“.

Repetindo Sérgio Cabral na contracapa de 74, “melhor que isso não podemos lhe dar. Só o céu e as estrelas. Mas NÉLSON CAVAQUINHO está perto disso“. Correto, excelente Cabral. Isso que você escreveu é tão bom, que me permito repetir, endossando.

J.L. FERRETE
contracapa do LP de 1983 pela Relevo (2.19.405.003)


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Depoimento do poeta (LP Castelinho, LPNE 10.002, 1970)

Nelson Cavaquinho (Album, LP) capa, cover
capa: Sergio Cruz | foto: Sergio Cruz

Lado A – “Luz negra” (Nelson Cavaquinho-Amâncio Cardoso), anunciado por Elizeth Cardoso; “Palhaço” (Nelson Cavaquinho-Oswaldo Martins-Washington Fernandes); “Notícia” (Nelson Cavaquinho-Alcides Caminha-Nourival Bahia), anunciado por Eneida; “Orgulho e agonia” (Nelson Cavaquinho-Fernando Mauro), anunciado por Sargentelli; “Aceito o teu adeus (Não me olhes assim)” (Nelson Cavaquinho-Luiz Rocha-Amado Regis), anunciado por Eneida; “Eu e as flores” (Nelson Cavaquinho-Jair do Cavaquinho).

Lado B – “A flor e o espinho” (Nelson Cavaquinho-Alcides Caminha-Guilherme de Brito); “Rugas” (Nelson Cavaquinho-Augusto Garcez-Ary Monteiro), anunciado por Elizeth Cardoso; “Caridade” (Nelson Cavaquinho-Erminio do Vale), anunciado por Sargentelli; “Pranto de poeta” (Guilherme de Brito-Nelson Cavaquinho), anunciado por Elizeth Cardoso; “Juro” (Nelson Cavaquinho-Amado Regis); “Degraus da vida” (Nelson Cavaquinho-César Brasil-Antônio Braga); DIÁLOGO DE NELSON CAVAQUINHO E SÉRGIO CABRAL.


Paulo Cesar Costa (produção), Altamiuro Carrilho (dir. musical). Jorge Coutinho (eng. de som), Wilson Medeiros (operador), Sérgio Cruz (foto e arte).

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Marcelo Oliveira
Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense e botafoguense. Meu objetivo com o blog é preservar a memória do SAMBA!

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