Nelson Cavaquinho (Album, LP) capa, cover

Nelson Cavaquinho, Série Documento

RCA, a gravadora, que empunhava bandeira tradicionalista em oposição ao tropicalismo da Philips, lançou, entre 72 e 73, a “Série Documento”. Neste post: o LP sobre Nelson Cavaquinho.

“Quando eu me chamar saudade” (Nelson Cavaquinho-Guilherme Brito) – trecho

Por favor, não ouçam este disco como se ele fosse de um cantor comum. Não cometam a injustiça do comparar Nelson Cavaquinho como se este cara fosse um desses cantores que estão sempre nas paradas de sucesso. Se isso acontecer, você pode até não gostar da voz dele. É uma voz ao mesmo tempo rouca o fanhosa, não convencional. Detenha-se, portanto, no que há dentro desta voz, dentro deste camarada que você esta ouvindo, nas entranhas deste genial poeta.

Saiba que Nelson Antônio da Silva, o ex-soldado da Policia Militar do Rio de Janeiro que jamais marchou com o passo certo, é um boêmio que nada encontrou na vida capaz de modificá-lo. Se ele tiver que continuar dando parceria ao quitandeiro que lhe vendeu fiado o alface e a banana, continuará. Nem o prêmio da Loteria Esportiva – ele, o único ganhador – lhe tiraria dos botequins infectos da Lapa e da Praça Tiradentes. Nem o acontecimento mais terrível lhe impedira de cantar seus sambas pros amigos.

Nelson Cavaquinho é na minha opinião, um dos raros gênios da música popular brasileira. Ninguém como ele pega o lirismo popular, o ponto de vista popular, a visão popular, a poesia popular, o sentimento popular e expressa-os com tanto talento e força criativa. Ninguém como ele se confessa (naquele sentido que Manoel Bandeira dizia que Lima Barreto, o escritor, se confessava) de uma maneira tão bonita, tão emocionante. O que eu quero dizer é o seguinte – poucos artistas mostram sua alma e seu coração com tanta beleza quanto Nelson Cavaquinho mostra a sua, nos seus sambas.

Nelson Cavaquinho faz música há uns 35 anos. Fez até alguns sucessos, como o samba “Rugas” (gravado por Ciro Monteiro aqui mesmo na RCA). “Palhaço“, “Degraus da vida“, “A flor e o espinho” e outros. Apesar disso, ele nunca foi um cara de andar atrás de cantores para gravar suas músicas. Quem quisesse que fosse ouvi-lo nos botequins – o seu mundo. Nem mesmo a sua Estação Primeira de Mangueira, para a qual compôs vários sambas – tirou-o da mesa do bar para desfilar. Nelson Cavaquinho é, rigorosamente, um puro. Preste atenção a sua letra. Verifique você mesmo que poeta extraordinário é esse camarada que jamais leu um livro de poesia na vida. (Perguntei-lhe uma vez, qual era o seu poeta preferido e ele me disse que só tinha um livro em casa: um dicionário que ainda não tinha folheado). Sempre tive um certo desprezo por um tipo de contestação que foi moda na música popular brasileira, por uma filosofia “Underground” que predominou durante algum tempo, exatamente por causa de pessoas como Nelson Cavaquinho, que já estavam nessa há muito tempo e os observadores não sabiam. Nelson Cavaquinho já fazia contra-cultura há mais de 30 anos e os nossos contestadores musicais procuravam o modelo internacional para fazer a sua, desrespeitando inclusive os princípios daqueles que os levaram a adotar a posição que tomaram. Nelson, sim, jamais se enquadrou nos padrões da moda. Jamais criou visando ao consumo, jamais se rendeu aos padrões impostos por quem dita o gosto, de quem se guia pelo apresentador de-dia-a-dia-da-televisão.

Portanto, ouça-o como se estivesse penetrando no âmago de um criador fabuloso. E você entenderá melhor os seus versos e suas intenções. E gostará muito da sua voz cheia de cachaça, de sofrimento e de boêmia. E o amará como nós os “nelsoncavaquinhistas” – o amamos.

Sergio Cabral
contracapa


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/info

Nelson Cavaquinho, Série Documento (LP RCA-Victor, 103.0047, 1972)

Nelson Cavaquinho (Album, LP) capa, cover
capa: Tebaldo

Lado A – “Quando eu me chamar saudade” (Nelson Cavaquinho-Guilherme Brito); “Tatuagem’ (Nelson Cavaquinho-Guilherme Brito); “Eu e as flores” (Nelson Cavaquinho-Jair do Cavaquinho); “Palhaço” (Oswado Martins-Nelson Cavaquinho-Washington); “Sempre Mangueira” (Nelson Cavaquinho-Geraldo Queiroz); “Deus não me esqueceu” (Nelson Cavaquinho-Ananias Silva-Armando Bispo).

Lado B – “A flor e o espinho” (Nelson Cavaquinho-Alcides Caminha-Guilherme Brito); “Degraus da vida” (Nelson Cavaquinho-César Brasil-Antônio Braga); “Notícia” (Nelson Cavaquinho-Nourival Bahia-Alcides Caminha); “Lágrima sem juri” (Nelson Cavaquinho-Fernando Mauro); “Luto’ (Nelson Cavaquinho-Sebastião Nunes-Guilherme Brito); “Luz negra” (Nelson Cavaquinho-Amâncio Cardoso).


Waldyr Santos (coordenação artística), Osmar Zandomenigui (coordenação geral), Tebaldo (lay-out).

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Marcelo Oliveira
Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense e botafoguense. Meu objetivo com o blog é preservar a memória do SAMBA!

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