Nelson Sargento (Album, LP) capa, cover

Nelson Sargento, Versátil

Em Versátil, Nelson Sargento, 84, põe a tropa em fila e apresenta suas armas, neste seu quinto CD individual.

“Nas asas da canção” (Dona Ivone Lara-Nelson Sargento)

Sete anos após o último CD, Flores em vida, Nelson exibe em Versátil sete inéditas entre as 16 músicas do disco. Chama atenção a valsa Rosa Maria, flor mulher, interpretada ao piano por Wagner Tiso, uma das quatro participações do disco – Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara e a Velha Guarda da Mangueira são as outras.

“O Zeca queria gravar Falso amor sincero, mas eu não deixei. Ele sempre cantou Ciúme doentio em shows, mas nunca havia gravado, então eu pedi que fosse essa”, diz Nelson, que compôs a música com Cartola.

Sobre Falso amor sincero, Nelson se apressa em dizer que a letra – que diz “o nosso amor é tão bonito, ela finge que me ama e eu finjo que acredito” – não se aplica ao romance dele com Evonete Belizário, sua mulher, alvo de beijos e carinhos durante a entrevista.

Dono da gravadora independente Olho do Tempo, responsável por Versátil, Agenor de Oliveira se tornou parceiro constante de Nelson. A música que iniciou a parceria é Sinfonia Imortal, cujo verso final, em que Nelson esbanja lirismo, é “o que eu desejo afinal é fazer das nossas vidas uma sinfonia imortal”. Para iniciá-la, Oliveira não deixou por menos: “Nós dois somos um naipe de orquestra, raios de sol pela fresta, nas partituras do amor”.

Outro destaque do CD é Século do samba, samba-enredo que Nelson compôs para a Mangueira em 1999 – e que, derrotado, não foi para a avenida.

Para lançar o CD, Nelson Sargento fez pela primeira vez um show no Canecão em que é o artista principal. Versátil é um projeto que deveria comemorar os 82 anos de Nelson, mas foram necessários dois anos para viabilizar o disco – que, celebra seus 84 anos.

“Quero lançar um CD por ano até 2030”, anuncia Nelson. “Já combinei com são Pedro e até lá estou garantido”, diz.

O texto publicado no encarte do CD, assinado por Nei Lopes é o que transcrevo a seguir.

Afinal pra quê serve um “sambista de raiz”? Esta pergunta nós nos fizemos, num misto de tristeza e indignação, quando vimos o parceiro Wilson Moreira cair vítima de um derrame, cerca de onze anos atrás. Naquele momento, a garotada, filha daquela rapaziada universitária que se extasiou com a modernidade afro de Clementina no Teatro Jovem e elevou o velho Zicartola à categoria de templo maior do samba carioca, começava a descobrir os finos petiscos de Cartola, Candeia e companhia. E, aí, nós, aporrinhados da vida, chamamos para nós mesmos a responsabilidade da resposta

No nosso modesto entender – pensamos – um sambista de verdade (“de raiz” é rótulo maroto) serve como ponte entre o ontem e o amanhã; como referencial e também como baluarte – no sentido de “suporte, apoio, sustentáculo” e também no de “fortaleza inexpugnável” – contra as investidas destruidoras.

Agora – perguntávamos novamente, para logo depois voltarmos a responder – : quanto vale um sambista, nessa história?

Em termos de mercado, sabemos, por experiência própria, que vale muito pouco. Porque os assim chamados, principalmente os rotulados como “de raiz”, são sempre aqueles que, embora reverenciados e com boa entrada na tal da “mídia”, quase nunca são gravados pelos grandes vendedores de disco; quase sempre são convidados “especiais” só para cantar de graça ou receber o “simbólico”, o “da passagem”; e nunca, apesar das placas-de-prata e medalhas de mérito, são incluídos no contexto da milionária indústria cultural.

Mas acontece que, hoje, graças aos deuses e musas, o que de melhor se faz na música popular brasileira, incontestavelmente, está exatamente fora desse contexto aviltado e emburrecido. E este é, com toda a certeza, o caso de Nelson Sargento e deste seu CD “Versátil”.

Às vésperas de completar 84 anos de idade; 43 anos depois do inesquecível “Rosa de Ouro“; numa trajetória artística e literária que inclui telas, filmes e livros, Sargento põe a tropa em fila e apresenta suas armas, neste seu quinto CD individual. E essas armas são: composições com sua marca, parcerias geniais, arranjos eficientes, músicos de grande talento… E fidelidade absoluta à sua sina de artista moderno e corajoso.

O disco começa com um autêntico Ivone-Lara (substantivo incomum), pra malandro nenhum botar defeito. Pois Nas asas da canção, embora Nelson sempre apareça, no “ocaso da vida”, na “mente cansada”, “emoldurando a fantasia”, é um Ivone-Lara legítimo, safra 1947. E dele vamos para o correto Sinfonia imortal, parceria com Agenor de Oliveira, conhecido como intérprete e entusiasta da obra de Noel Rosa (o saudoso poeta da Vila), de ausência quase tão sentida, para nós, quanto a do nosso pranteado parceiro Maurício Tapajós, que assina, com Sargento, o Verão no rosto. Nessa faixa, a seqüência harmônica do trecho “sorriso infantil” parece Maurício dizendo “estou aqui!”. E daí, passamos, tirando o chapéu, por um Cartola (Ciúme doentio), para chegar à primeira surpresa do disco

Mas como?! Uma valsa? Sem letra? E solada ao piano pelo Wagner Tiso?

Calma, prezado leitor-ouvinte! Rosa Maria, flor mulher é apenas a primeira surpresa deste CD “Versátil”. Porque, a faixa seguinte, Bálsamo… é um bolero! Com direito a acordeom e tudo! No melhor estilo anos 50. E a outra é um fox (Primeiro de abril), com a guitarra elétrica harmonizando, tipo Oscar Moore ou Billy Mackel; e na qual nosso Sargento incorpora Custódio Mesquita na melodia e Lamartine Babo na letra lírico-brincalhona.

Mas a versatilidade do artista é claro que acaba (ou continua) em samba. Com o protesto partideiro do parceiro Agenor em Acabou meu sossego; com outra reclamação, desta vez mais bronqueada, quando o letrista acusa a mentirosa de “tapar o sol brilhante com a peneira da ilusão” (Parceiro da ilusão); até que chegamos ao “samba do Marreta”.

Compositor dos primeiros tempos da verde-e-rosa, Marreta, integrante da Galeria de Honra da ala de compositores mangueirenses, ao que consta, jamais ganhou um samba-enredo e é muito pouco conhecido. E é Nelson Sargento que, agora, o apresenta ao grande público, nesta parceria (Só eu sei) tão pequenininha quanto melodiosa e contagiante. Um verdadeiro samba-de-terreiro dos bons tempos! Tão forte quanto a faixa seguinte, Pobre milionária, é ilustrativa da influência de Cartola nas obra do nosso grande artista.

Sobre o clássico Falso amor sincero já se disse tudo. Mas aí vêm, de novo, Sargento e o Oliveira com uma marcha-rancho “daquelas” – que não nega sua raça nem no arranjo. Versatilidade! E, então, o excelente Pranto ardente, nos faz ver “Os Cinco Crioulos” (inclusive com os saudosos Anescar e Jair) metendo bronca, de terno branco, no palco do Teatro Jovem; e nós também. Mas eis que chega o Século do samba, concorrente ao enredo da Manga em 1999, nos fazendo coçar a cabeça: “é melhor este samba aqui, Seu Nelson; pois lá, ia virar outra coisa!”. É nessa que a letra de Ídolos e astros dá o recado final: “Os grandes artistas, como Nelson Sargento, sempre viverão na memória daqueles que têm respeito e consideração”.

Pois é isto! Ponte entre o ontem e o amanhã, este CD mostra, de fato, a maestria e a versatilidade de Nelson Sargento, valioso e valoroso, referencial e baluarte. Fortaleza inexpugnável do samba, ao lado de Evonete (seu “bálsamo”), ele incursiona também por outras “praias” do seu tempo. E, assim, sob a batuta desse extraordinário Paulão Sete Cordas e contando com um batalhão de grandes músicos e amigos, ele, versátil sem perder a raiz, põe a tropa na rua e toma suas providências.

É para isto que serve um sambista de verdade!

Nei Lopes


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Versátil (CD Selo Olho do Tempo, OLT 006, 2008)

Nelson Sargento (Album, LP) capa, cover
capa: Ronaldo Mattos e Agenor de Oliveira | foto: Léo Vilella

Faixas – “Nas asas da canção” (Dona Ivone Lara-Nelson Sargento); “Sinfonia imortal” (Nelson Sargento-Agenor de Oliveira); “Verão no rosto” (Maurício Tapajós-Nelson Sargento); “Ciúme doentio” (Cartola-Nelson Sargento); “Rosa Maria, flor mulher” (Nelson Sargento-Wagner Tiso); “Bálsamo” (Nelson Sargento); “Primeiro de abril” (Nelson Sargento); “Acabou meu sossego” (Nelson Sargento-Agenor de Oliveira); “Parceiro da ilusão” (Nelson Sargento-Agenor de Oliveira); “Só eu sei” (Nelson Sargento-Marreta); “Pobre milionária” (Nelson Sargento); “Falso amor sincero” (Nelson Sargento); “Amar sem ser amado” (Nelson Sargento-Agenor de Oliveira); “Pranto ardente” (Nelson Sargento-Oscar Bigode); “Século do samba” (Nelson Sargento-Josimar Monteiro-Francisco Blanco); “Ídolos e astros” (Marinho da Chuva-Nelson Sargento).

Paulão 7 cordas (produção e direção musical), Agenor de Oliveira (produção artística), Valéria Lobão (assistente de produção), Carlos Fuchs (gravação, mixagem e masterização), Erik Medeiros e Daniel Vasques (técnicos de gravação), Ronaldo Mattos e Agenor de Oliveira (projeto gráfico), Léo Vilella (fotografia), Olho do tempo (coordenação de produção), Maneca de Jesus e Rodrigo “Orelha” (equipe de apoio á produção).

Arranjos: Paulão 7 Cordas (fxs. 1,2,3,4,6,7,8,9,10,11,14,16), Wagner Tiso (fx. 5), Nelson Sargento (fx. 12), Eduardo Neves (fxs. 12,13), Josimar Monteiro (fx. 15). Participação especial: Dona Ivone lara – voz em “Nas asas da canção”, Zeca Pagodinho – voz em “Ciúme doentio”, Wagner Tiso – piano em “Rosa Maria, flor mulher” e Velha Guarda da Mangueira – voz em “Século do samba”.

Alex Almeida (efeitos, ganzá, agogô, repique de anel e caixa), Altair Martins (trompete), Arismar do Espírito Santo (baixo), Belôba (ganzá, tamborim e tantã), Bernardo Bosisio (guitarra), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas), Carlinhos Tchá Tchá Tchá (surdo), Carlos Fuchs (piano), Cláudio Jorge (violão), Eduardo Neves (flauta e saxofone tenor), Fernando Merlino (piano), José Luiz (pandeiro), Josimar Monteiro (violão e violão 7 cordas), Kiko Horta (acordeon), Luiz Louchard (contrabaixo), Marcílio Lopes (bandolim), Márcio Almeida (Hulk) (cavaquinho), Paulão 7 Cordas (violão), Paulino Dias (tamborim, pandeiro e xequerê), Pretinho da Serrinha (repique de anel, surdo, pandeiro, ganzá, tantã, tamborim e caixeta), Roberto Marques (trombone), Rui Alvin (clarineta), Vitor Mota (saxofone), Xande Figueiredo (bateria), Agenor de Oliveira, Mariana Bernardes, Pedro Holanda, Pedro Miranda e Valéria Lobão (coro).

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Marcelo Oliveira
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Sou carioca, mangueirense e botafoguense. Meu objetivo com o blog é preservar a memória do SAMBA!

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