O canto dos escravos (Disco, LP) album cover

O canto dos escravos

Em disco (Canto dos escravos), Tia Doca, Geraldo Filme e Clementina, três das majestades negras da música popular brasileira, registram 12 cantos de trabalho (ou vissungos) recolhidos nos anos 1930.


Em 1928, indo em gozo de férias a S. João da Chapada, município de Diamantina, chamaram-me a atenção umas cantigas em língua africana ouvidas outrora nos serviços de mineração. Fui ter com um dos conhecedores, o meu bom amigo João Tameirão, que, com solicitude, satisfez à minha curiosidade de aprender as cantigas.

Tomei notas apressadas, que vim depois a rejeitar. E, nas curtas estadas naquele aprazível e tranquilo arraial, nunca deixei de observar alguma coisa sobre os tais cantos de trabalho, cuja importância foi crescendo em meu conceito, à medida que fui adquirindo conhecimentos novos.

Entendi, posteriormente, de realizar, de vez, o velho plano de recolher os “vissungos“, como lhes chamam, reunindo ainda o vocabulário e a gramática da ‘língua de banguela”, certamente transformada em nosso meio.

Quase nada consegui na primeira investida. Lá ficava, porém, o meu colaborador, Araújo Sobrinho, com instruções minhas.

Voltando, mais tarde, encontrei novidades: um vocabulário de duzentas palavras, colhidas na boca de “seu’ Tameirão, algumas cantigas e a notícia do falecimento do nosso prestimoso amigo.

Fiquei pelos cabelos, imaginando que tudo estava perdido. Mas não tardaram em aparecer outros conhecedores. E, depois de peripécias que não vêm ao caso, conseguimos, com um outro cantador, letra, música e tradução, ou antes “fundamento’, como eles dizem.

Enquanto isso as pesquisas alargavam o do nosso objetivo. A importância dos “vissungos”, sua difusão no local, desde os primeiros tempos, a necessidade que tinham os brancos de aprender a lingua dos negros, a influência africana nos começos do arraial, os vestígios da língua das cantigas na linguagem corrente, na onomástica e na toponímia, – tudo isso acabou de me convencer, dando corpo à antiga suspeita, de que existia em S. João da Chapada um dialeto criolo de negro bantos. E efetivamente de agora em diante, já não cabe dizer que somente existia, no Brasil, o dialeto dos negros nagôs na Bahia.

Mas voltemos a história do livro, pois êsse livro já tem sua história. Araújo Sobrinho, que de secretário pessoal a colaborador, pela sua eficiência pessoal duplicou a […]

Não sei se seremos felizes com as notas e reflexões. O certo, porém, é que só o material, que tivemos a sorte de desencavar em nossa mineração, bastaria para justificar o aparecimento de um livro.

À colheita do material seguiu-se o exame da bibliografia sobre o assunto. Compulsando livros de linguistas e etnógrafos, tivemos ensejo de estabelecer confrontos e reforçar hipóteses. Muitas vezes, vimos a autenticidade dos modestos achados e a plausibilidade das reflexões confirmadas pelas contribuições dos eminentes estudiosos que antes de nós lavraram o terreno. Com isso pudemos evitar, quanto possível, generalizações apressadas, cotejos fantasiosos e afirmações apriorísticas. Se o não conseguimos, não foi por falta de necessária diligência.

AIRES DA MATA MACHADO FILHO

O texto acima foi publicado como introdução do livro O Negro e o garimpo em Minas Gerais (Editora José Olímpio), de Aires da Mata Machado Filho, sendo aqui reproduzido com a permissão do autor, que igualmente autorizou o Estúdio Eldorado a realizar a gravação de quatorze das sessenta e cinco partituras registradas naquela obra, O Cantos dos Escravos, nas vozes magníficas de Clementina, Tia Doca e Geraldo Filme.


spotify / youtube / apple music

/info

O canto dos escravos (Disco, LP) album cover

O canto dos escravos – Clementina de Jesus, Doca e Geraldo Filme (LP Estúdio Eldorado, 64.82.0347, 1982)

Lado A “Canto I”, com Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme; “Canto II”, com Clementina de Jesus; “Canto III”, com Geraldo Filme; “Canto IV”, com Tia Doca; “Canto V”, com Clementina de Jesus; “Canto VI”, com Geraldo Filme; “Canto VII”, com Tia Doca.

Lado B “Canto VIII”, com Clementina de Jesus; “Canto IX”, com Geraldo Filme; “Canto X”, com Tia Doca; “Canto XI”, com Geraldo Filme; “Canto XII”, com Clementina de Jesus; “Canto XIII”, com Tia Doca; “Canto XIV”, com Geraldo Filme.


Aluizio Falção (projeto e coordenação artística), Marcus Vinícius (direção musical, produção e direção de estúdio), Flávio Barreira (técnico de gravação e mixagem), Ariel Severino (direção de arte e capa), percussionistas: Djalma Correia (tronco, atabaques, xequerê, enxada, cabaça), Papete (atabaques, xequerê, agogô, ganzá), Don Bira (atabaques, caxixi, xequerê, afoxê).

2 comentários em “O canto dos escravos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *