Rosa de Ouro vol.2 (Album, LP) capa, cover

Rosa de Ouro n°2

Repetindo o sucesso do álbum lançado em 65, em 67 temos o Rosa de Ouro n° 2, também com Aracy Côrtes, Clementina de Jesus e o Conjunto Rosa de Ouro.

“Isso é que é viver” (Pixinguina-Hermínio Bello de Carvalho)

E o “Rosa” voltou! O maior espetáculo de música popular brasileira de todos os tempos virou instituição nacional e hoje é nome de barzinho, de lojas comerciais, baile de carnaval – e quanta coisa mais! Ganhou prêmios, levou Clementina, Paulinho e Elton a Dakar e Cannes e praticamente não quer largar os palcos. Hoje no Rio, amanhã na Bahia, semana que vem em São Paulo – sempre um mundo de compromissos a cumprir. Provocou também uma “revolução” na música popular brasileira. A gravação do primeiro volume deste “Rosa” (Que obteve “Sacis”, “Euterpes” e inclusão quase obrigatória entre os “dez mais” do ano de seu lançamento – além de ter sido editado na Europa, seguiu-se o aparecimento de muitos outros volumes contendo o repertório da peça, numa autêntica consagração dos compositores nela reunidos. É hora de começar o espetáculo. Aracy, Clementina, Elton, Paulinho, Anescar, Jair e Nelson se aprontam. Terceiro Sinal. Os “spots” se acendem…

“Ela tem uma rosa de ouro nos cabelos
e outras mais, tão graciosas…”

Na platéia há rebuliço. O espetáculo do poeta Hermínio Bello de Carvalho e todo brasileiro, tem cheiro de terra, de dengue nacional…

O “Rosa” esta de novo com a gente. Dizem que melhor do que a outra vez.

Vamos “ver” se isso é possível…


Sobre o “Rosa”, Hermínio escreveu…

O “Rosa de Ouro” surgiu numa época efervescente do Brasil, um ano após ter sido instalado o regime militar com seu manto censório. Estávamos em 65, e poucos meses antes um outro musical – o “Opinião” – denunciava as ameaçadoras transformações que iriam, por mais de 20 anos, massacrar o país e triturar a sua cultura. A estética dominante era a bossa-nova, nascida em 1958 no embalo do violão de João Gilberto emoldurando a voz da Divina Elizeth Cardoso em Chega de saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes (LP Canção do amor demais). Dentro desse contexto, o Rosa de Ouro fez um contraponto à bossa-nova: deu um mergulho nas raízes brasileiras, resgatando para a memória do país uma série enorme de compositores há longo tempo alijados da indústria da música, além de registrar a polirritmia da música ligada às raízes africanas – como o lundu, o jongo, corimas, chulas-raiadas, batucadas, partido-alto, cantos de pastorinha e reisados – algumas engastadas nas manifestações de Candomblé. Dessa forma, podemos dizer que ambos os shows – o Rosa e o Opinião – podem ser vistos como focos de resistência político-cultural. Vale registrar que não fosse a existência de uma casa de samba chamada Zicartola (fusão dos nomes Zica e Cartola), inaugurada em 1963, e os referidos espetáculos, possivelmente não tivessem sido municiados de um repertório tão significativo, e Nara Leão não ousasse gravar, como pioneiramente o fez naquela época, um Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Keti, João do Vale, contra-pondo-se ao ao rótulo de musa da bossa-nova que lhe pespegaram. É que, naquele reduto carioca inaugurado em 63, reunia-se a fina flor da MPB e também a nata da intelectualidade brasileira, que, para fugir aos dias sombrios que se avizinhavam, faziam do Zicartola uma espécie de quartel-general da nossa cultura. Albino Pinheiro e eu éramos os apresentadores dos espetáculos informais que Zé Keti inventara para animar a casa. Sérgio Cabral nos sucederia nesse ofício. Entre cervejas e os salgadinhos preparados por Dona Zica, exorcizava-se a ameaçadora nuvem negra que pairava sobre nós, tudo embalado pelos lindos sambas cantados por Cartola, Ismael Silva (que levei para aquele reduto), Nelson Cavaquinho, Geraldo das Neves, Zé Keti e tantos outros compositores, a maioria vinculada às escolas de samba. Paulinho da Viola (que também carreguei pro Zicartola) ainda se intimidava de soltar a voz, limitando-se a acompanhar ao violão os sambas que, muitos deles, integrariam os repertórios do Rosa e do Opinião. Na platéia, Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, Ferreira Gullar Sérgio Cabral, Tereza Aragão, Nara Leão, Albino Pinheiro. Gente do cinema, teatro, literatura e artes plásticas assistiam, ali, sem saber, à germinação da semente dos dois importantes espetáculos.

Em dezembro de 1964, quase que simultaneamente com o Opinião, o Teatro Jovem de Kleber Santos abriu-me as portas para uma série de espetáculos que fundiam música popular e erudita. A primeira apresentação dessa série revelou o maior fenômeno da música negra vocal do Brasil: Clementina de Jesus (1901-1987), precedida, nessa estreia, por um jovem violonista que depois se consagraria mundialmente: Turíbio Santos. Acompanhada pelo violão de Benedito Cesar Faria, e tendo como percussionista Paulinho da Viola e Elton Medeiros, Mãe Quelé (assim a chamavamos) de pronto chamou a atenção da crítica, inclusive a erudita. Ary Vasconcellos sintetizou a importância de Clementina numa frase definitiva: “A descoberta de Clementina de Jesus por Hermíio Bello de Carvalho teve para a música brasileira uma importância que presumo corresponder, na antropologia, ao achado de um elo perdido“. A Série O Menestrel apresentaria ainda o modinheiro Paulo Tapajós, Aracy de Almelda, o duo Oscar Caceres-Turíbio Santos, com Jacob do Bandolim e seu Época de Ouro referendando a volta da maior estrela do Teatro de Revistas do Brasil, a grande Aracy Côrtes (1904 – 1984), há muito afastada dos palcos. Ela me foi trazida pelas mãos generosas de Mestre Jota Efegê, decano da crônica musical brasileira. A semente de um grande espetáculo popular, observou Kleber Santos, estava ali, na série O Menestrel: bastaria adubar a terra. Foi o que fiz. Ao espetáculo foram agregados Paulinho da Viola e Jair do Cavaquinho (Portela), Elton Medeiros (Unidos de Lucas), Nelson Sargento (Mangueira) e Anescarzinho (Salgueiro). Como cenário apenas uma mesa de bar e um telão, onde projetávamos depoimentos de Pixinguinha, Donga, Lúcio Rangel, Sérgio Porto, Almirante, Cartola, Jota Efegê.

Desse encadeamento Zicartola, Opinião e Rosa de Ouro, pode-se dizer e a crítica foi unânime em afirmá-lo, a música popular brasileira firmou um núcleo de resistência cultural que se alastrou pelo país, estimulando novos manifestos musicais e possibilitando que, mesmo situada num pólo estético aparentemente antagônico, a bossa-nova fosse reverenciar as figuras nascentes de Clementina e Paulinho da Viola. Como aliás, logo em seguida, fizeram Caetano Veloso, Elizeth (em 1966 produzi o “Elizeth sobe o morro” com repertório extraído do Rosa), Gilberto Gil e Milton Nascimento.

Herminio Bello de Carvalho


/info

Rosa de Ouro n.2 (LP Odeon, MOFB 3494, 1967, Aracy Côrtes, Clementina de Jesus, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Nescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola)

Rosa de Ouro vol.2 (Album, LP) capa, cover
capa de WILSON GEORGES para o programa do “Rosa”

Lado A – “E a Rosa voltou” – samba (Jair Costa), “Rosa de Ouro” – samba (Hermínio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola), “Quatro crioulos” – samba (Elton Medeiros – Joacyr Santana), “Cântico à natureza” – samba de enrêdo (Nelson Mattos – Jamelão) — ouça ♫ ; “Isso é que é viver” – samba (Pixinguinha – Hermínio Bello de Carvalho) — ouça ♫ ; “Flor do lodo” – samba (Ary Mesquita) solo: Aracy Côrtes — ouça ♫ ; “A harmonia das flores” – marcha-rancho (Pixinguinha – Hermínio Bello de Carvalho) solo: Aracy Côrtes — ouça ♫ ; “Francesa no morro” – samba-maxixe (Assis Valente) solo: Aracy Côrtes — ouça

Lado B – “Palmares” – samba de enrêdo (Noel Rosa de Oliveira-Anescar-Walter Moreira), “Psiquiatra” – samba (Élton Medeiros-Zé Keti) solo: Elton e Paulinho — ouça ♫ ; “Degraus da vida” – samba (Nelson Cavaquinho – César Brasil – Antônio Braga) solo: Paulinho da Viola, “Mulher fingida” – samba (Bide – Cartola) solo: Elton Medeiros, “O que será de mim?” – samba (Ismael Silva – Nilton Bastos) solo: Elton Medeiros, “Que samba bom” – samba (Geraldo Pereira – Arnaldo Passos) solo: Nelson Sargento, “Só pra chatear” – samba (Príncipe Pretinho) solo: Jair do Cavaquinho — ouça ♫ ; “Dona Maria, devagar” – partido-alto (Folclore), “Clementina, cadê você?” – partido-alto (Élton Medeiros), “Santa Bárbara” – samba macumbeiro (Folclore) solo: Clementina de Jesus — ouça ♫ ; “Mulato Calado” – samba (Marina Batista – Benjamin Batista Coelho) solo: Clementina de Jesus — ouça ♫ ; “Minha vontade” – samba (Chatinho*) solo: Clementina de Jesus — ouça ♫ ; “Quem sabe um dia?” – samba (Paulinho da Viola) solo: Paulinho da Viola, “Rosa de Ouro” – samba (Herminio Bello de Carvalho – Elton Medeiros – Paulinho da Viola) — ouça


Maestro Nelsinho (diretor musical), participaram ainda dessa gravação: Canhoto (cavaco), Dino e Meira (violões), Jorge Arêna (atabaques), Marçal (cuíca), Juca e Luna (percussão) e Copacabana e Jair (coro), capa de Wilson Georges para o programa do “Rosa”

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Marcelo Oliveira
Marcelo Oliveira

Sou carioca, mangueirense e botafoguense. Meu objetivo com o blog é preservar a memória do SAMBA!

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